Lisboa 14-12-80
Cidadão redactor.—Tem nas ultimas tres semanas manifestado-se uma crise de trabalho que tem aterrado as classes operarias, e muito particularmente os pedreiros e carpinteiros. Era de esperar que esta crise se desse, visto que a companhia das aguas concluiu o encerramento do Alviella e o governo não readmittiu algumas dezenas de operarios que para ali mandou. Realisou-se no dia 5 do corrente, uma conferencia no theatro da rua da Conceição; foi conferente o cidadão L. Cigma, presidiu o cidadão P. da Fonseca, e serviram de secretarios cidadãos M. Bruno e F. Lobo. A conferencia versou sobre a permanencia das congregações jezuiticas em Portugal e os tristes resultados do fanatismo religioso. O conferente orou proficientemente sendo muito admiravel a sua verbosidade e repetidas vezes interrompido por freneticos applausos, sobre os quaes se levantaram os jesuitas de casaca a insultar o orador e o partido republicano. Narremos os factos: A ceita negra enviou para ali uns 18 ou 20 membros com o fim de empalmarem a conferencia, caso lhes fosse concedida a palavra, o que a mesa de fórma alguma podia conceder, não só aos jesuitas senão a quaesquer outros que pedissem a palavra, posto que é praxe sabida, n’uma conferencia só é permittido fallar o conferente. Como se lhes não permittisse fallarem foram frustrados os seus planos, porém não cederam do seu perfido intento; como é de costume n’aquella damninha ceita, resolveram fazer tumulto provocando os cidadãos que estavam na platéa e que elles conheciam como republicanos. Da provocação resultou o tumulto e d’este a pateada em que os taes jesuitas apanharam um bom quinhão. Nunca nos persuadimos que o jesuitismo, essa ceita prescripta quasi de todas as nações, tivesse o arrojo de vir a um theatro repleto de espectadores, levantar o insidioso grito de «viva os jesuitas!» Cremos que se não tivessem plena confiança no actual governo não se arriscariam a tanto. Não é só o partido republicano que protesta contra a estabilidade dos jesuitas em Portugal, é todo o partido liberal que se une como um só homem e reclama do governo o fiel cumprimento das leis promulgadas pelo grande estadista marquez de Pombal, leis que vigoram no paiz, porque não houve legislação que as revogasse, de contrario, houve a legislação de Joaquim Antonio de Aguiar que as reforçou. Ao governo cumpre respeitar e fazer cumprir as leis vigentes no paiz, aliás não é digno de respeito. Consta que por estes dias reunirá o conselho de estado para deliberar a nomeação da nova fornada de pares. Al. Bruno.