Almodovar—18 de dezembro de 1880. Sr. redactor
No jornal O Progresso, de 30 de novembro ultimo, noticiámos que esteve n’esta localidade o ex.mo sr. conselheiro governador civil deste districto, e narrámos a maneira por que foi aqui recebido tão illustre hospede, e isto sem outro fim que não fosse o de demonstrar que Almodovar sabe render homenagem aos homens dignos e illustres; aquella innocente narrativa, porem, fez transbordar a bilis, ha muito alterada, do correspondente do Jornal do Povo n.º 257, o que não surprehendeu, pois que todos aqui o conhecem como susceptivel d’estas tempestades, e ei-lo na arena da imprensa classificando mais uma vez o seu genio bondoso: não o tememos por lado algum, fique sabendo isto. Diz elle que o ex.mo sr. conselheiro governador foi esperado a um kilometro d’esta villa sómente pelos empregados publicos; pergunta-me quantos homens independentes contei n’essa phalange processional; affirma com certo entono, bem explicito, que aqui ainda os ha. Sim senhor, ha, e o articulista é o primeiro, pois não é? Com que então entre os cavalleiros que esperavam o ex.mo sr. governador não achou nenhum independente? Esta parte do articulado presta-se para resposta que não seria agradavel, por isso, e pelas raivas que facilmente conhece, não exploraremos mais este campo; aquelles, porém, que lhe rendam graças pelo mimo! Continua o angustiado correspondente querendo fazer ver que o mesmo ex.mo sr. só foi acompanhado por algumas pessoas do foro que por acaso o encontraram, levantando-se vivas que foram correspondidos por alguns com calor e enthusiasmo, sendo duzia e meia dos taes foguetes do ar os que foram lançados! Nada mais e nada menos!... Mas sua ex.ª foi o unico culpado d’esta pobre e fria recepção! Para que não transigio com a imposição que lhe fizeram do correspondente para ser delegado de confiança n’este concelho? Acceite-lhe agora as consequencias!... Se o illustre chefe superior do districto tivesse andado, como não devia, enganei-me, como devia, veria agora aquelles escravos que o esperaram a um kilometro desta povoação metamorphoseados em cidadãos independentes! O povo viria, ainda ao mais recôndito canto do concelho, victorial-o, acompanhal-o! Não por encontro fortuito, mas de proposito; a tal duzia e meia de foguetes do ar seria transformada em dezoito grozas!... Finalmente tudo seria enthusiasmo, delirio mesmo, e grandeza!! Mas quem nunca poderia fazer brilhante figura n’esta festa civica é quem nas trevas forja a queda dos seus parentes, e quem, sem o menor motivo, os guerreia, felizmente sem resultado, inventando offensas que não recebeu e nem foram sonhadas, para a salvo da opinião publica poder aggredir! Pode pois proseguir. Continua ainda o correspondente dizendo que sua ex.ª elogiou os chefes das repartições, e com especialidade o sr. Metello, secretario da camara, e que se tivesse vindo n’outra era não teria a quem elogiar. O correspondente revela que é hospede n’estas cousas publicas chamando chefe de repartição ao sr. Metello, e um mau humor contra o empregado que o antecedeu. Quem ha aqui que ignore que os trabalhos da competencia d’este empregado se acharam em ordem? Informe-se o correspondente e saberá que o ex.mo sr. Borges Pacheco, quando veio visitar o districto, teceu ao empregado a quem me refiro os mesmos louvores que agora foram dirigidos ao sr. Metello, e se o empregado publico merece elogios porque cumpre com o seu dever, dir-lhe-hemos que aquelles não foram menos bem cabidos, pois aquelle restabeleceu a escripturação que se achava n’um cahos e este seguir um caminho terraplenado; isto porém não quer dizer que o sr. Metello não é um empregado trabalhador e intelligente. A paixão do articulista variou-se completamente; quando nós o vimos no dia da chegada do ex.mo sr. governador, envolto em comprida capa, demonstrando pesado luto e de má catadura, logo prophetisámos explosão de grande lava! Não nos enganámos; pobre Jornal do Povo!... Foi elle o submergido. Bem se vê quanto pode um affecto desordenado!... Coitado!... Chore... chore, que a lagrima é livre; não mais o interromperemos nas suas lamurias; sirva-lhe porém de lenitivo que o proprio a quem tanto odeia lhe ha de dar ensejo para que se realisem os seus sonhos dourados, devendo ter comtudo muito conta que não se opere alguma metamorphose dos nomes de João para José; não sabe a quem me refiro? Sabe, sabe; e tu que sabes e eu que sei, calla-te tu que eu me callarei. E’ isto o que ouvimos dizer, mas salvamos a nossa responsabilidade.