Lisboa—27-12-80. Cidadão redactor
O Diario Popular, de 28 do corrente, insere uma correspondencia datada d’Evora que é, alem de um insulto áquelle povo, uma falsidade repugnantissima. Não seria um ministro progressista que ordenou que o quartel general voltasse para Estremoz? Como é que o auctor da correspondencia pretende attribuir ao partido regenerador, ou constituinte, um insulto que um ministro progressista inflingiu ao povo eborense, em lhe tirar d’ali, por simples vingança, o quartel general? Para se avançar semelhante blasphemia, é preciso que um individuo se revista de toda a hypocrisia que caracteriza um deturpador officioso. Não sou affeiçoado ao partido regenerador, nem mesmo ao constituinte; para mim tanto valem os progressistas como os regeneradores; os meus principios politicos são muito differentes, não é uma idea politica que me impelle a destruir as falsas informações do auctor da dita correspondencia, é o impreterivel dever que eu tenho de defender os meus compatriotas, sempre que um quidam qualquer se lembre de os fazer instrumentos d’uma politica odiada pela maioria do paiz. Analysemos a correspondencia: referindo-se ao regresso do quartel general diz: «... Este voltou, dizendo-o bem alto, pelos esforços do sr. Pinheiro Borges, da camara municipal e dos amigos do governo, pela boa vontade deste em extinguir todos os vestigios d’um conflicto quasi imaginario.» Direcção-o tambem bem alto: se o quartel general está em Evora foi o governo regenerador que para lá o fez remover e se elle de lá voltou para Estremoz, foi por ordem do governo progressista. Negue, se a tanto se atreve. Emquanto á bajulação feita ao sr. Pinheiro Borges é elle que lhe agradeça. Se o sr. Pinheiro Borges e a camara municipal influiram com o governo para que o quartel general para ali voltasse, cumpriram sómente com o seu dever; o povo eborense, se elegeu o sr. Pinheiro Borges seu representante, foi para lhe zelar os seus interesses; se assim o não fizesse o povo tinha o direito de lhe retirar o mandato. Depois descreve mais uns tres paragraphos [ilegível] de provocações que não merece a pena analysar, e em seguida diz: «Os trinta trens dos regeneradores, (trinta) que metade eram typoias (naturalmente eram quinze palanquins) de carga (?) estavam mettidos nas travessas, ninguem os via; o sr. governador civil e camara municipal tinham na estação para acompanhar o sr. general Maldonado e o seu estado maior dezessete carruagens... etc.» Então dezessete é mais que trinta? Deus nos dê paciencia! Mais abaixo diz que o sr. Ramalho regougou um viva a el-rei e que os progressistas são todos amigos do monarcha. São, não ha duvida; a prova está, quando pela bocca do Diario Popular lhe chamaram capa de ladrões e que um dos actuaes ministros o ameaçou de lhe pôr escriptos no palacio que habita; os progressistas não são só amigos do rei, são até amigos do povo, por isso decretaram uma rede de impostos, por cujas malhas nem os desgraçados trapeiros escapam! Ora vejam, até as girandolas de foguetes eram progressistas! Talvez fossem feitas pelo pyrotechnico de S. Roque e neste caso foram feitas á custa dos cofres da nação, e o diabo o jure, são capazes de tudo! Até a muzica da casa pia tambem era progressista! Esta nem ao diabo lembra! Oh srs.! por quem são? Não toquem na casa pia! Não toquem n’aquelle nicho de abusos! M. Bruno.