Acontecimentos na Europa
O resultado das eleições municipaes que tiveram ha pouco logar em França veio demonstrar o quanto o principio republicano está solidamente radicado no espirito publico. Foram eleitos em todos os departamentos os mais reconhecidos membros do partido republicano moderado. Nota-se a derrota do radicalismo ainda mesmo em Paris, Lyon e Marselha. Este facto prova á evidencia que a França acceita a republica moderada como unica forma de governo possivel mas rejeita a politica avançada que a poderia arrastar a aventuras perigosas. Assim, pois, vemos que a politica iniciada por Thiers e seguida por Grevy e Freycinet triumpha por uma forma admiravel não obstante os trabalhos dos monarchicos e dos jesuitas. O resultado das eleições municipaes deve levar ao centro dos partidos conservadores a convicção inabalavel de que a monarchia caiu para sempre condemnada e amaldiçoada pelo povo, e que a restauração do imperio é tão impossivel como impossivel é esquecer as lições da historia. Ácerca da revolução no Transwaal as noticias são muito confusas. Algumas folhas de Londres fallam da questão com muito interesse e dão á revolta dos boers avultada importancia; outras, porém, são de opinião que a revolta perde terreno e que breve os boers terão de depor as armas. Observa-se, porém, e no meio d'esta confusão de opiniões e noticias, a preoccupação do governo e o movimento das forças a que tem ordem para embarcarem para o Natal, o que prova que a revolução apresenta um caracter serio e muito grave. Com as noticias da Irlanda dá-se o mesmo facto. Dizem no entanto as correspondencias particulares de Dublin que a agitação dos espiritos é cada vez maior e que a Liga Agraria faz espantosos progressos. A eterna questão do Oriente apresenta as mesmas difficuldades e perigos que nos anteriores, aggravados pela anarchia das provincias turcas, pela excitação das ambições da Grecia, Bulgaria, e potencias europeas. Do estado actual faz o nosso estimado collega do Madrid La Fé a seguinte resenha: A Grecia está preparada para a guerra; a Turquia reune forças para atacar a Grecia; a Bulgaria prepara-se para intervir na contenda; os albaneses intimam os montenegrinos á evacuação de Dulcigno; a Allemanha e a Austria excitam secretamente o sultão á resistencia; a Russia e a Inglaterra estimulam a Grecia para começar a acção; a França e a Italia, receiosas, temem ter que pagar as custas: eis a situação das cousas no Oriente. Não é pacifico este aspecto, e póde de um momento a outro comprometter a paz da Europa; comtudo esta ameaça tem por tantas vezes ficado infructifera, que um jornal francez a compara aos coristas da grande opera que cantam durante uma hora: Aux armes! Courons, courons! E por fim ficam sempre em paz. Não sabemos se á Grecia acontecerá o mesmo. A França no intuito de cooperar para a resolução da questão grega pelos meios pacificos propôs uma arbitragem, idéa acceite pelas demais potencias mas repellida pelas duas partes interessadas, se bem que aquellas parecem dispostas a insistir na sua realização. Os successos como se vê complicam-se.