Lisboa—20 de junho de 1881. Cidadão redactor
N’esta minha correspondencia não irei encher as columnas do Bejense com a relação das perseguições, torpesas e infamias destes celebres lidadôres; e apenas me occuparei de alguns factos que deem mais interesse aos estimaveis leitores. Também não relatarei os absurdos e iniquidades deste tyro, que para escarneo é governador civil da capital; porque quando então encheria as columnas do Bejense e não chegariam. Na quinta feira houve a costumada procissão de Corpus Christi que ia ficando bem na memoria do povo lisbonense. Foi caso que um dos pretorianos do general Macedo, quando passava a procissão, lembrou-se de chegar as esporas ao cavallo, para pisar o povo; o pouco mais ou menos já se deve ver o resultado. O povo começou a correr d’um para outro lado da rua; mas um sr. capitão de infantaria 5 entendeu que era melhor aportar o povo, e mandou unir fileiras. Os soldados começaram ao socco ao povo e pisaram uma mulher e uma criança. Então um popular tirou a baioneta ao soldado e deu-lhe com ella; depois os camaradas vieram acudir e foram recebidos a murro e pontapé e bengalada. Por fim levantou-se tal confusão, que os padres fugiram uns para um lado e outros para outro; um até chegou a marinhar para cima d’um candieiro; o homem da basilica fugiu pela rua dos Fanqueiros, os irmãos fugiram tambem; emfim foi uma peça carnavalesca. Estas scenas já deviam ter acabado em honra á civilisação e á moralidade, porque só servem para fazerem escarneo. No ultimo conselho de ministros tratou-se definitivamente de fixar o dia para as proximas eleições; e consta que serão para o fim d’agosto. Alerta povo! A ti e só a ti, cumpre vigiar os teus interesses! Vê quem mandas ao parlamento! É tempo de acordares d’este teu criminoso somno: olha que da proxima legislação depende o nosso futuro! Estuda bem os teus representantes, seus principios... Não mandes ao parlamento homens que estejam compromettidos na ruina da nossa querida patria. A camara municipal vae levantar um empréstimo de mil contos: encher có-cót é encher. O transporte India sahe no dia 25 para fora. Já chegou o Vasco da Gama de Times. Os progressistas dirigiram um manifesto ao paiz assignado por 84 deputados da maioria. São sete a mais que os traidores. Causa dó vel-os espernear na agonia da morte... e ainda tentam levantar-se; mas ao povo compete enterra-los na cova que elles cavavam para a patria: que é a nada. Por hoje nada mais. Fernando Augusto de L. e Mello.