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Beja 5 de agosto

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Beja · Portugal Governo Civil · Interpretacção incerta

Continuamos a resposta que demos ao Districto de Beja. Cousa singular e significativa,—para os adeptos do sr. Borges a ausência da s. ex.ª no comício do S. Carlos é um titulo á nossa admiração, um motivo mais que o recommenda aos eleitores de Beja! Aquelle celebrado comício, tão alevantado nos seus intuitos, tão proficuo nos seus resultados; aquelle comício d’onde sahio uma commissão imponente, que foi ao paço levar a expressão dos votos populares, perdeu de repente o seu prestigio e influencia, tão apregoados pelos jornaes regeneradores de então, e passou a ser uma reunião de grangeiros arruaceiros, com os quaes homem algum que se prezasse, podia estar hombro a hombro, mudo, quedo e impassivel! Mas não poderá o collega dizer-nos, como lá estiveram o sr. Rosa Araújo, presidente e director da arruaça, o sr. Arrobas, o sr. Eduardo Tavares, o sr. dr. Alves, o sr. Freitas e Oliveira, e outros tantos e tão qualificados membros do partido regenerador? Foi no entanto por causa do comício do S. Carlos e das scenas que se lhe seguiram, que na camara dos pares foi apresentada a celebre moção de desconfiança, que obrigou a pedir a demissão o ministerio progressista, o qual foi substituido por um governo que sabe estar á altura da gravidade das circumstancias. Devemos tambem concluir das allegações dos adversarios que se emanasse um grupo de eleitores, sem ligações partidarias, convidasse os dois candidatos oppostos a virem dirimir em plena assembléa de eleitores do circulo os seus titulos aos nossos suffragios, desenvolver as suas ideas politicas, o sr. José Maria Borges naturalmente não viria ao comício eleitoral, pôr-se hombro a hombro com os eleitores, porque não é aquelle logar proprio para ostentar as suas insignias de magistrado! Sim, comprehendemos bem o que querem dizer os governamentaes que acceitaram o illustrado juiz: somos honrados e homens bons d’esta cidade, se votarmos no magistrado que não póde ostentar as suas insignias ao nosso lado; seremos uns pifios sapatos de ourêllo, se tivermos a loucura de preferir um homem que conhecemos e estimamos, ao ausente auditor geral do ministerio da guerra. Fallar em liberdade de consciencia e imposições governamentaes, é velha cantilena! A nova cantilena, a da mocidade esperançosa que desdenha das velharias, consiste em estender a mão á lista imposta ou recommendada pela auctoridade, e julgar-se o eleitor ainda honrado com a immerecida distincção de ser representado por um juiz que tem receio de manchar a toga ao roçar por alguma jaqueta de operario. Perdão! Isto é tambem velha cantilena. Effectivamente, a moralidade, a abnegação, a consciencia vão passando ao estado de velhas impartioluias que só devem figurar no theatro para satisfação dos ingenuos. Creem estes que ser honrado, moral e consciencioso, não é uma cantilena, mas um dever social. Em politica eleitoral estas cantilenas são realmente ridiculas. Então os eleitores mostram veleidades de quererem ser independentes e conscienciosos? E’ boa cantilena essa. Então o governador civil, ou o administrador dizem-lhes o nome que ha de sair da urna, e os senhores eleitores recalcitram? Em que tempos vivemos, santo Deus, que uns caturros querem votar em quem lhes parece, e não em quem lhes mandam, já porque são independentes pelo seu trabalho, e porque teem a impertinencia de querer perceber a razão porque o governo lhes manda um candidato! Enganámo-nos: não ha imposição, está isso provado. Todos nós assistimos, ou pelo menos ouvimos fallar, da reunião dos eleitores influentes, regeneradores, per sang, onde foi resolvida a eleição do sr. Borges. Nós combatemos o candidato regenerador, porque somos constituintes. Isto é claro, assim como é egualmente claro que os regeneradores combatem o nosso candidato, porque é elle constituinte. Se é uma simples questão entre os dois partidos, a que vem aqui a intervenção da auctoridade? Pois as auctoridades administrativas foram creadas para cumprirem e fazerem cumprir as leis ou para se transformarem em agentes eleitoraes d’um determinado partido? E’ a nação que paga aos seus servidores para manterem o equilibrio e a ordem entre os partidos que legalmente disputam o poder, ou as auctoridades de qualquer ordem são simples servidores d’um partido? Entre as doutrinas que se leem como lemma na bandeira do partido constituinte, figura a liberdade eleitoral; não essa liberdade fingida e hypocrita, que é a maior das torpezas do nosso systema constitucional, mas a liberdade verdadeira, sem influencia das auctoridades administrativas, que traz a anarchia; sem a intervenção dos fiscaes e exactores da fazenda, que é a immoralidade e a desordem financeira; sem a pressão horrorosa que obriga o pae a faltar á sua consciencia, ou a ver o filho arrancado ao trabalho e arrastado como facinora até ás fileiras do exercito, o que é uma infamia. E’ só pela ampla liberdade da urna que haverá um governo sahido da maioria dos representantes da nação; emquanto que até agora só temos visto as maiorias saindo da vontade do governo. Não caem os ministerios perante as maiorias parlamentares; semeiam-se as maiorias quando os governos desapparecem. E’ contra esta sophismação do systema parlamentar que todos nós—constituintes ou não—mas eleitores, que põem acima de tudo a prosperidade da patria e a verdade da representação da vontade popular—é contra este systema bastardo de falsa liberdade, e de viciação eleitoral, que todos devemos reagir constante e firmemente, com a inteireza de cidadãos livres e a independencia das consciencias rectas.