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Artigo

Acontecimentos na Europa

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As folhas conservadoras e reaccionarias de todos os matizes continuam a proposito da expulsão de D. Carlos a aggredir furiosamente o governo francez. A guerra promovida pelos reaccionarios contra a França não nos causa a minima admiração, e até nos parece que nas actuaes circunstancias torna-se de muito proveito aos interesses dos republicanos porque assim melhor se conhecem quaes os verdadeiros inimigos da ordem, da paz, da liberdade e da democracia. Os jornaes reaccionarios mostram-se desesperados e cheios de odio contra a vontade unanime do povo francez. Para elles a França está sendo victima dos herejes e dos atheus e d’este estado unicamente a poderá salvar a monarchia tradicionalista representada na pessoa de Henrique V. E’ realmente necessario muita audacia e muito cynismo para se investir assim tão descaradamente contra o governo republicano legalmente sanccionado por repetidas vezes pelos votos espontaneos do povo. Um outro assumpto—as desordens em Roma por occasião da transladação do cadaver de Pio IX—continua ainda na tela da discussão. Pelas folhas italianas chegadas nos ultimos correios vemos que as desordens não tiveram o caracter que os reaccionarios de todo o mundo catholico lhes pretendem attribuir, antes pelo contrario foram preparadas para material de acudir a incendios. O que o papa se acha prisioneiro no Vaticano e portanto para adquirirem maiores donativos aos interesses do cofre da curia romana. A questão perde pois toda a sua importancia e nem vale a pena fallar-se d’um assumpto que vae cahindo ao ridiculo. Posto de parte esses dois assumptos habilmente preparados e explorados pelo ultramontanismo vamos, no interesse do desempenho da nossa missão, passar uma rapida vista sobre o estado da Europa o qual, a julgar por varias noticias, nos parece bem pouco lisongeiro aos interesses da paz, não obstante alimentarmos a mais firme convicção de que todas as questões serão placidamente resolvidas pela diplomacia. Conforme ninguem ignora as noticias desencontradas espalhadas pelos pessimistas e pelos optimistas produzem uma tal confusão que difficilmente se encontra a verdade. Assim, pois, o que hoje no interesse dos pessimistas se affirma é amanhã desmentido pelos optimistas, e assim sucessivamente. E’ um labyrinto do qual, a muito custo, se sae. Um despacho de Londres para a Presse de Vienna diz que em Inglaterra se preveem graves complicações, e talvez uma guerra europea, a que dará pretexto a politica de França na Africa. Ao mesmo tempo, a Gazeta de Saint James accusa o sr. de Gladstone de deixar correr os interesses da Inglaterra á revelia, quando estão tão ameaçados pela crescente influencia da França no mediterraneo. Esta folha chega a dizer que o primeiro ministro não quer ver que o que se está passando é o resultado de um accordo entre a França e a Allemanha para interceptar á Inglaterra a estrada das Indias. E’ para notar que a Gazeta da Allemanha do Norte reproduza este artigo na integra, sem uma palavra de commentario. Veem pois de Londres n’este momento as noticias aterradoras e os prognosticos de guerra, parecendo que o Foregn Office procura crear ou augmentar as complicações. Accresce a isto a posição da Italia em relação á França, completamente hostil a esta potencia. A Italia aproveitará todas as complicações, e fará todas as allianças que possam prejudicar a França. A Italia, a Porta e a Hespanha não nos perdoam a expedição de Tunes e a politica africana. E para conjurar tantos males ha uma camara absolutamente incapaz, e um ministro mais inhabil que temos conhecido. A julgar por estas noticias em todo o ponto aterradoras não estamos longe d’um terrivel cataclysmo. Não succederá porem assim. As questões a julgar pelos successos da Algoria e de Oran nas quaes a Hespanha e a Italia pareciam querer tomar uma parte hostil á França, estão felizmente sanadas, e ha a mais firme esperança de que a diplomacia conseguirá resolver todos os assumptos evitando assim o derramamento de sangue.