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Fallámos em a nossa preterita revista ácerca dos mais importantes successos politicos da Europa, do maravilhoso e explendido resultado das eleições em França, facto importante ao qual toda a imprensa prestou a devida attenção. Hoje, e em additamento ás noticias e observações do nosso ultimo trabalho, e para que se veja a forma liberrima como se fizeram as eleições n’esse paiz, damos a carta que Leon Gambetta dirigiu aos eleitores de Belleville. É um documento importantissimo que fez calar os conservadores nas suas vergonhosas diatribes contra o acto eleitoral e contra a politica do governo. Eil-o: «Meus caros concidadãos.—No escrutinio legislativo de 21 de agosto tinha eu considerado como um dever não distinguir entre os dois circulos de Belleville; queria submetter claramente, sem subterfugios, o julgamento da minha politica a todos os meus antigos eleitores, abstendo-me de me propor em nenhum dos outros collegios eleitoraes do paiz. Foi pronunciado este julgamento, e a maioria dos eleitores dos dois circulos reunidos ratificou a minha politica. Eleito pela primeiro circulo de Belleville por maioria absoluta, soube esta manhã que o segundo apenas me deu a maioria relativa. Está tomada a minha resolução; sei o que pretendia saber. Parece-me hoje inutil, e pouco respeitoso para com o suffragio universal, que não deve ser instrumento de um capricho tentar uma nova demonstração eleitoral, sem fim pratico, por isso que a opção entre os dois circulos seria inevitavel dentro de poucas semanas. Julgo mais digno proclamar essa opção desde já. Sou e fico sendo o deputado do primeiro circulo. Deputado por Belleville, isso me basta. Esta eleição, apesar da vileza e da violencia dos esforços reunidos de todos os nossos inimigos colligados contra nós, é decisiva. Ella prova que, no centro mais apaixonado, mais inflammavel de Paris, ao lado de uma minoria muito propensa á versatilidade, ha sempre uma minoria de republicanos resolutos e fieis ás sãs rasões politicas. Tirou-se a prova aqui, como em todo o resto da França, e não serão os commentarios de uma imprensa desvairada, as vozerias furibundas dos demagogos, os sarcasmos desmedidos dos vencidos reaccionarios que poderão desvirtuar o caracter e o alcance da politica reformadora, firme, prudente, leal, methodica e forte que nós concordemente seguimos, e que nunca estará á mercê de coalisões vergonhosas. Preservaremos na politica de progressos regulares, successivos, por tempos, esperando tudo da vontade do paiz, nada da força; sempre promptos a repellir os utopistas e os retrogrados; sempre resolvidos a manter a par a ordem com o progresso republicano. Não nos será difficil achar nas vossas fileiras, para representar o segundo circulo, um grande numero de servidores da republica, experientes e dedicados, cujo passado e cuja honra estejam á altura dos vossos suffragios. Apenas accrescentarei uma palavra. A vós, todos que vos tendes conservado firmes, e que tendes tido confiança no vosso mandatario, os meus agradecimentos. O deputado pelo 1.º circulo de Belleville, Leão Gambetta.» A rasão da existencia da carta fez saber-se no apuramento das eleições que Gambetta não ficara eleito deputado pelo segundo circulo de Belleville. Compare-se a forma como em França se fizeram as eleições com a maioria despótica, arbitraria e torpe como entre nós correu por parte do governo o acto eleitoral. A carta de Gambetta é um documento comprovativo da liberdade da urna em França. Está encerrado o parlamento inglez. Uma grande parte da imprensa presta n’este momento grande attenção á viagem do imperador Guilherme e ás novas manobras que o exercito allemão vae executar, ás quaes os officiaes estrangeiros, segundo um telegramma dirigido de Berlim ao Times, não poderão assistir. É este o ponto de maiores observações da parte da imprensa. Sabe-se que muitos generaes solicitaram do governo allemão que os officiaes que haviam sido convidados a presenciar as manobras que se realisaram na provincia de Hannover e do Holstein pudessem assistir tambem ás de [ilegível], porém com muita cortezia o governo de Berlim, que quer guardar o mais rigoroso segredo ácerca da sua combinação de movimentos, negou-se a esta pretenção. Com a noticia da viagem do imperador Guilherme e das novas manobras do exercito allemão correu igualmente uma outra noticia da constituição do ducado de Badeu em reino; hoje, porém, sabe-se que era e é destituida de fundamento. O boato que tem corrido d’uma visita do rei de Italia ao imperador d’Austria e ao da Allemanha parece confirmar-se e ácerca d’este assumpto falla-se com muito interesse em toda a Italia. Ao que parece não estamos longe d’uma triplice alliança da Allemanha, Austria e Italia. Uma só cousa observaremos: é que chega quasi a parecer incrivel como a Austria esqueça Sadowa e a Italia esqueça Solferino e Magenta.