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Congresso das associações portuguezas

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Lisboa · Europa · Portugal Câmara Municipal · Correspondência · Exterior / internacional · Interpretacção incerta · Relatório

Recebemos a seguinte carta: «Ill.mo Ex.mo sr.—As associações portuguezas, como fórmas naturaes onde convergem todas as iniciativas dos individuos, e como a verdadeira escola em que se organisam outras forças semelhantemente poderosas e necessarias como as de que dispõe o estado, comprehenderam a necessidade de se harmonisarem a um fim commum, concorrendo por uma intelligente uniformidade para a grandeza das festas nacionaes ao centenario de Camões no dia 10 de junho de 1880. Se essa festa de um povo, que exaltava a maior gloria da sua civilisação, ligada ao facto fundamental da historia moderna—as navegações portuguezas—admirou a Europa, que reconheceu a nossa solidariedade no progresso hodierno, em Portugal não foi menor a sua influencia, accordando nos elementos mais vitaes da nação os estimulos para uma era de renascimento. As associações portuguezas revelaram a intenção da revivescencia ligada ao centenario de Camões, quando para commemorarem a data grandiosa acceitaram estas bases exaradas no programma do Tricentenario, Parte I, n.º 5: “Pelas differentes associações será celebrada no dia 10 de junho de todos os annos uma assembléa geral ou congresso dos representantes de todas as associações reunidas para o fim de apreciar as condições do successivo desenvolvimento social, intellectual e economico do paiz.” Cumpria á commissão executiva da imprensa, que logrou realisar as festas mais significativas e que no povo produziram a emoção mais fecunda, intervir de um modo directo para que se levasse a effeito este pensamento do congresso das associações portuguezas, consignado entre as fundações emergentes do centenario. Como a Associação dos jornalistas e escriptores portuguezes, dirigida na quasi totalidade pelos membros da commissão executiva da imprensa, era tambem uma fundação do centenario, a ella foi submettida a proposta do congresso, e, se como associação mais moderna, ella entendeu que não lhe competia organisar definitivamente o Congresso das associações, reconheceu todavia a sua obrigação moral, e conciliando-a com uma honrosissima modestia, limitou-se a iniciar a primeira sessão solemne inaugural do referido congresso, entregando ás associações portuguezas o destino d’essa promettedora instituição. Pela commissão promotora do congresso pediu-se á dignissima camara municipal de Lisboa, por officio de 4 de junho, a cedencia de uma sala para a celebração solemne d’essa sessão inicial, sendo convidados todos os presidentes das associações para virem assistir a esse acto, que conforme o respectivo programma, § 2, consistia em eleger uma commissão encarregada de organisar as bases definitivas do futuro congresso das associações portuguezas, e formular sobre consultas especiaes o questionario, podendo aggregar a si todos os individuos cuja competencia e serviços em prol da idéa associativa eram garantia do exito incalculavel de um tal emprehendimento. A ceremonia inaugural do Congresso das associações portuguezas excedeu todas as expectativas, não só pelo logar da sua celebração no palacio da municipalidade, como pela commemoração effectiva do dia 10 de junho de 1881, que nunca mais será esquecido. De facto ahi se fez a eleição dos membros da commissão organisadora do Congresso das associações, e é em virtude d’esse acto que nos foram conferidos os poderes para realisarmos em mutuo accordo uma fundação de tanto alcance. É n’este intuito que a commissão organisadora do congresso se dirige a v. ex.ª, pedindo-lhe se sirva proceder de modo que a meritissima associação, a que preside, ponha em acção os meios indispensaveis para que o Congresso das associações portuguezas se effectue em data não remota, e para que produza as vantagens que ainda os espiritos mais vulgares podem prever. Em primeiro logar, nenhuma idéa de politica individual ou partidaria actua no plano da realisação do Congresso das associações; é n’esta abstenção de paixões partidarias, e no mais elevado intuito scientifico e economico, que convidamos as associações portuguezas de existencia, e á consecução do seu destino individual. A idéa de um Congresso das associações portuguezas é antiga entre nós; appareceu em differentes épocas, sob fórmas diversas, mas não póde ser realisada pelo atrazo em que estiveram por muito tempo as idéas associativas. A sua iniciação data de 1856; tentava-se um ensaio de liga ou Federação das associações, cujo relatorio e base são de 2 de maio de 1857 e de 16 de outubro de 1858. Felizmente, a maior parte dos individuos que pugnaram por esta idéa, porque o congresso é a consequencia da federação das associações reunidas em assembléa geral annual, acham-se ainda agora na commissão organisadora eleita no dia 10 de junho ultimo no palacio municipal. Em outubro de 1865 o centro promotor dos melhoramentos das classes laboriosas tomou a iniciativa de um congresso social, cujas bases foram publicadas com um manifesto, em 30 do mesmo mez e anno. Porque se mallograram todas as tentativas? Porque é que o mesmo pensamento reapparece espontaneo por occasião do centenario de Camões? A resposta cabal só póde ser dada pela historia do principio associativo em Portugal; e de facto desde 1857 e desde 1765 até hoje tem-se avançado immensamente no que respeita á illustração e iniciativa individual. O que ha vinte e cinco annos não passava de uma tentativa, o que ha dezeseis annos ainda não era exequivel, hoje está no animo de todos, que reconhecem a necessidade de tirar as associações da sua vida isolada, ligando-as nos interesses communs e dando-lhes a força de uma collectividade para tornar effectiva a representação dos seus direitos. É por isso que a realisação do congresso das associações demarca uma epoca nova na manifestação do principio associativo em Portugal. Entre nós a vida collectiva nunca teve condições de desenvolvimento; a moral social fundava-se na desconfiança mutua, no isolamento egoista do individuo, que se receiava do seu semelhante, porque emfim obedecemos durante seculos a instituições que fundavam a ordem publica da delação secreta e na espionagem, como a inquisição e a intendencia. Para introduzirem Portugal á idéa associativa foi preciso um apostolado fervoroso, não só contra o preconceito da desconfiança vulgar, como contra a resistencia de governos que imaginavam nas aggregações de classes centros de conspiração revolucionaria, e as embarcavam pela intervenção administrativa. Mau grado a estas condições excepcionaes, a idéa associativa generalisou-se na vida portugueza, e hoje são numerosissimas as associações que derramam os seus beneficios e influxos moraes e philanthropicos sobre todas as classes. É-nos impossivel aqui enumerar esses centros de desenvolvimento individual; basta traçar a area da sua acção, que comprehende associações economicas, cooperativas de consumo e de trabalho industrial, associações de beneficencia, soccorros domiciliarios, associações instructivas e recreativas, etc. [ilegível]. As associações de fóra de Lisboa podem nomear delegados ao congresso individuos filiados em associações n’ella estabelecidas, quando não queiram enviar representantes directos.» (Continua).