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Beja 14 de outubro

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Beja · África · Espanha · Europa · França · Portugal Exterior / internacional

Abrio-se á circulação o ramal de Cárceres, e á sua inauguração assistiram os chefes dos dois estados peninsulares. Os chronistas da festa dizem que os cumprimentos trocados entre os dois soberanos foram muito cordeaes. El-rei D. Luiz e el-rei D. Affonso XII fizeram-se acompanhar dos seus ministros. Ora a aproximação dos dois monarchas com os seus ministros responsaveis que significará? Uns dizem que o encontro em Cárceres não passa de um acto de cortezia; outros que os dois monarchas quizeram unica e simplesmente presidir á inauguração de um melhoramento do mais alto interesse economico para os paizes que representam; outros finalmente que houve uma entrevista. Ora em diplomacia a palavra entrevista tem um alto alcance. Qual das opiniões adoptaremos? Inclinamo-nos a que houve entrevista. Todo o mundo sabe que as folhas do reino visinho, sem distincção de côres politicas, alludiram ha pouco tempo á alliança entre Portugal e Hespanha para a execução de um plano sobre Marrocos e desconfiando-se, como narra uma folha regeneradora o Jornal da manhã, que a insurreição da Argélia se desenvolva e se estenda a Marrocos, o reino hespanhol desejaria que Portugal o acompanhasse na empreza da occupação d’aquelle imperio, porque estando unida no mesmo pensamento a peninsula iberica, não poderia a França realisar o intento de que se suspeita, e ficaria formada por esta união uma formidavel potencia que as outras haviam de temer e respeitar. N’estas circumstancias é natural que o convite do rei D. Affonso feito ao rei D. Luiz seja interpretado como um pretexto para as primeiras negociações de futura e proxima alliança. Não sabemos se a chamada entrevista teve ou deixou de ter este alcance ou importancia. O que sabemos é que se a Hespanha nos distribue muitos carinhos, é que anda receiosa de que a guerra d’Africa tome graves proporções e a obrigue a intervir; e ou teme successos de magnitude, ou se prepara para provocál-os, pois que, alem de annunciar o seu governo, pela bocca do monarcha, proxima e importante reforma militar, acaba de nomear uma junta para o estudo de um plano de defeza do reino. Se a Hespanha tem necessidade de fortalecer-se, nós, que somos um paiz pequeno, devemos ser indifferentes a estes factos e ao estado geral da Europa? Não se sabe o que o governo pensa; ignora-se o que elle projecta fazer; sabemos que ha de modificar-se; e sabemos tambem que esta e outras gravissimas questões são inquietadoras para o paiz. Tome o Districto conta em si e deixe-nos ir seguindo o nosso caminho. Não tenha receio de que apanhemos algum escaldão. Do tiroteio em que andamos não virá mal. Affiançamol-o. Em todo o caso agradecemos a advertencia, e aqui vinham de molde umas palavras que o bom do Virgilio poz na boca do pae Eneas. Não as citaremos. São versos e o Districto embirra com versos... com os do Tolentino pelo menos. Não vale pois incommodar. Com que então não se resolve a responder aos quesitos que em tempo formulámos ao Jornal de Beja? Pois se não responder não terá replica. Chame-nos mentirosos, insulte em vez de argumentar, que nos não causará o menor abalo. Isto pelo que respeita ao primeiro artigo; emquanto ao segundo tornamos a instar com o Districto para que aponte um facto que desauthorise a camara de Beja. Não o aponta. Agora calumnias póde forjar muitas. Calumniou na questão da cevada, calumniou na da mobilia e continuará n’ella já se sabe com a mira só no justo.