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Londres · Paris · Europa · França · Reino Unido · Rússia Exterior / internacional · Interpretacção incerta · Telégrafo

Acontecimentos na Europa. Estão abertas as camaras francezas. Com a noticia d’este acontecimento, aliaz importante, recebemos a noticia, hoje do dominio de toda a imprensa, d’um boato que talvez em breve seja levado á realidade; fallamos da queda provável do actual gabinete francez e da nomeação d’um gabinete presidido por mr. Leon Gambetta, um dos vigorosos esteios da republica franceza, que leve á pratica medidas rasgadamente liberaes e reformadoras que mais satisfaçam as generosas aspirações da França e que lhe destruam os ultimos elos das correntes oppressoras e vexatorias que ainda a ligam a um passado ominoso. A França, sequiosa de luz, de liberdade e de progresso, salvou a sua honra, a sua dignidade, o seu renome e a sua gloria proclamando a republica, hoje, livre dos tyrannetes que ao lado d’um despota covarde a opprimiam e a vexavam, caminha com passos seguros e vigorosos na senda do progresso, defendendo os seus direitos e convidando os povos do universo e principalmente da raça latina á conquista das suas regalias e da perfectibilidade da liberdade symbolisada n’esta palavra magica e gloriosa—a republica. É por isto que na imprensa parisiense se liga a maxima importancia á questão da formação de um novo ministerio. Uma outra questão—a agitação na Irlanda—constitue um dos assumptos de maior interesse na actualidade e que está seriamente preocupando o gabinete de Londres. A situação da Irlanda é gravissima e de dia para dia mais augmenta de importancia a agitação dos espiritos. O governo britannico, levando á pratica as medidas de repressão adoptadas pela maioria conservadora do parlamento, e ordenando a prisão dos membros da liga agraria, excitou, podemos assim dizer, o povo irlandez á revolta que hoje, a julgar pelas ultimas noticias, é já inevitavel. Apenas em Dublin se recebeu a noticia official da prisão de Parnell, um dos membros mais austeros da liga agraria e deputado do parlamento, organisou-se immediatamente um meeting a que assistiram mais de duas mil pessoas e em que foi approvada por unanimidade uma proposta condemnando em termos violentos aquella prisão. A reunião foi levantada aos gritos de: viva a republica irlandeza! abaixo os argelinos! Muitos colonos adheriram a essa resolução, comprometendo-se a não pagar os alugueis, até que seja posto em liberdade o sr. Parnell. O governo procurou por todos os meios obstar á realisação do meeting chegando até a mandar sahir para as ruas mais de dois mil e quinhentos soldados, nada porem conseguiu; o meeting realisou-se e em todas as casas da cidade appareceram bandeiras pretas, signal indicativo do protesto do povo contra as ordens arbitrarias do governo. De todos os pontos da Irlanda chegam a Londres noticias aterradoras. O povo nas cidades, nas villas, nas aldeias e nos campos, reage contra as ordens das auctoridades e de dia para dia mais augmentam os receios de que a revolução e portanto a proclamação da republica irlandeza appareça d’um para outro momento. O desassossego que lavra no seio da velha aristocracia ingleza é sem duvida o pronuncio de graves acontecimentos. A Irlanda, escravisada sob as garras do leopardo britannico, será livre e reconquistará as suas antigas regalias proclamando a republica que a ennobrecerá e cobrirá de gloria. Com a noticia destes successos recebemos igualmente a noticia d’um novo acontecimento a que o Morning-Post, de Londres, procurou ligar grande importancia: referimo-nos ao grande numero de prisões realisadas n’estes ultimos dias em S. Petersbourgo, de individuos na sua maior parte alumnos das escolas de medicina e militares, implicados nos trabalhos dos nihilistas—isto é, no partido da joven Russia. Ao mesmo tempo que isto se passava em S. Petersbourgo effectuavam-se igualmente prisões importantes em Yladrow, cidade de 15:000 habitantes, a 218 kilometros de Moscow, bem assim em certos pontos não menos importantes do imperio. Mas o facto é que os trabalhos da policia não intimidaram os nihilistas que pela sua parte redobraram de actividade na sua grande e gloriosa obra em trabalhar para a completa liberdade do seu paiz. E tanto isto é assim que ainda ha pouco o telegrapho nos fallou da descoberta d’uma nova tentativa contra a vida do imperador, noticia que vemos confirmada pelos jornaes intransigentes de Paris. Os nihilistas parece que abandonaram o uso das bombas explosivas e adoptaram nas suas represalias o emprego do punhal envenenado e do revolver. A revolução domina todos os espiritos e estende-se até aos confins do imperio. A Russia está prestes a atravessar uma crise violenta mas indispensavel á proclamação e consolidação da sua liberdade e do seu progresso. A victoria do nihilismo é apenas questão de tempo.