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Ficalho · Lisboa · Índia · Portugal Exterior / internacional

[ilegível] fazer a educação pratica dos noviços da ordem do venha a nós. Deram com os burros n’areia os mestres: os noviços, logo á entrada, mostraram-se mais mestres do que elles. Phenomeno rarissimo, que accusa o desenvolvimento precoce dos mais novos regeneradores, a ponto de irritarem os velhos, que se julgavam inexcediveis no conhecimento dos dogmas do seu partido. E eil-os ahi estão em lucta, os jovens e os Basorras, discutindo qual é mais nefasto ao paiz; disputando em phraseologia regateiral qual deve ceder ao outro os cofres da nação, que encerram o dinheiro do povo, ou antes devia encerral-o, se não estivesse devorado em scenas vergonhosas de insaciavel voracidade; luctando, em nome da barriga regeneradora; diligenciando cada um expulsar o outro do banquete leonino. Os Basorras não comprehenderam a sua missão, os jovens não quizeram cumpri-la. A febre do devorismo fez desvairar todas aquellas cabeças. Historiemos: Corria o anno da graça de 1881, e discutia-se no parlamento o tratado de Lourenço Marques. O tratado Lourenço Marques era obra regeneradora, era um abuso do poder de um dos mais notaveis caudilhos da regeneração, era um crime de lesa-nação praticado pelo sr. João de Andrade Corvo. O governo progressista melhorara-o consideravelmente; tirara-lhe as mais repugnantes clausulas, luctando para isso com maiores difficuldades do que teria luctado o negociador não as acceitando; sacrificava-se a um dever patriotico, para salvar a honra da nação, gravemente compromettida n’este acto revoltante dos authores do tratado da India. A opinião exaltava-se, as praças agitavam-se, os meetings reuniam-se, e o povo clamava por essas ruas, em nome do amor da patria. N’esta gravidade de circumstancias o que fizeram os regeneradores? Introduziram-se jesuiticamente no meio das turbas; assalariaram cauteleiros e vadios a cruzado por dia; mandaram tumultuar para as praças publicas os trabalhadores da camara de Lisboa; pozeram na rua a hydra da anarchia; e levaram-na cuidadosamente para a camara dos pares onde metteram medo com ella ao sr. marquez de Ficalho. O sr. Barjona, que exercia no partido o alto encargo de coadjuctor e futuro successor do sr. Fontes, indisciplina-se, atiçado pela ambição, e levantava o grito de revolta contra o chefe, apresentando uma moção que, votada pela camara, lhe daria o penacho, que os seus amigos já diziam não dever nem poder o sr. Fontes empunhar. Era a scisão na seita, era o dualismo no partido, era a morte da penitenciaria. Accudiu ao caso grave o sr. Fontes e inventou a altura das circumstancias, para obstar á divisão mortal que ia lançar o seu nefasto corrilho na valia immunda onde apodrecem os partidos impopulares e odiados. Tratou-se de organizar isso... o que para ahi se chama governo. Os jovens andavam impacientes; Basorra era uma velha impertinente. Todos elles almejavam por ser ministros, sonhavam com o correio de secretaria, faziam a lista dos parentes que tinham para annichar, concertavam planos de eleições liberrimas, pensavam nos amigos a quem haviam de dar postas; desvairavam sobre a impressão dos pesadellos em que as pastas lhes appareciam como brancas virgens a affagar-lhes a cutis mimosa de adolescentes, ou as pelles endurecidas pela edade. O sr. Fontes botou então isempção. O duque d’Avila promettia pouca vida e elle que tambem tinha os seus sonhos dourados, sonhava com o espolio do velho duque. O sr. Sampaio prestou-se á farsa dos arranjos e acceitou a presidencia de um gabinete formado pelos jovens e pelos Basorras. Era um amalgama de contradicções, era a reunião vergonhosa de opiniões oppostas e encontradas, era um escandalo; mas fazia arranjo ao sr. Fontes, e vingou. Mas o feitiço vira-se contra o feiticeiro. Ao sr. Fontes fazia agora arranjo modificar o seu ministerio, mudar de titeles, e tomar os cordões da caranguejola, para os mexer á vontade. Desillusão! Achou a revolta no convento. Os jovens e os Basorras, já todos Basorras, luctavam ferozmente no seio do gabinete, e uns e outros, com firmeza de melhor causa, punham os pés á parede, e declaravam não ceder um palmo do seu terreno. E o sr. Fontes teve de fazer das tripas coração declarar que não soára ainda a hora de se poder dispensar o seu ministerio de titeles á altura da gravidade; de fazer cara de approvação á rabujisse dos Basorras e ás garotices dos jovens, que declararam terminantemente querer mais pandiga. E por isso ahi temos esse espectaculo escandaloso, e nojento nas regiões do poder representado pelo partido regenerador, faminto e sequioso de mais carne e mais sangue d’este pobre povo, digno de melhor sorte do que a de supportar o aviltamento a que o condemna esse governo de Basorras, moços e velhos, todos egualmente immoraes e impudentes; e a supremacia do sr. Fontes, mais immoral e mais impudente do que os seus titeles.