De todos lados nos chegam tristes noticias
(Diz a união:) É grande a miseria que vai em Alcácer; as segues linhas, desgraçadamente, corroboram esta triste idéa. «Hontem foi o dia de juizo; uma cheia, como não ha memoria, inundou a rua direita e reduziu á miseria quasi todos os (negociantes), perdendo-se-lhes tudo quanto tinham nas lojas; e a agua subiu até aos primeiros andares, em minha casa por dois palmos. (No) escriptorio davam os saveiros e bateis salvando os inquilinos das casas que deitão para o rio; e de mais a mais começou a chover de noite, tocando a cheia o seu auge pelo meio dia. Tudo o que existia nas marinhas da Ilha perdeu-se todo, com elle centos de contos de réis, ficando as marinhas em tal estado que nem dentro em dois ou tres annos talvez produzam. Onde o prejuizo foi immenso foi nos celeiros de Rei e S. Bento, onde se achavão alojados milhares de moios de trigo e arroz; e, apesar das portas serem fortissimas, a agua, ao inchar o trigo, este arrebentou as portas, saindo por ellas. Só um individuo da Cuba tinha lá alojado mil moios, que foram por agua abaixo. Em fim, se isto estava por aqui muito embaixo por falta de negocio e pessimas searas, agora ficou tudo reduzido á maior miseria. A botica do (Lopes) e Silva, que fica na rua direita, e a do Cruz, que fica junto da Misericordia, perderam não só todas as drogas como parte dos vidros em que as tinham. A rua direita parece a feira da ladra; não se vê senão costaes de bacalhau, saccas de arroz e feijão, tudo destruido. É necessario ter um coração de pedra para não chegarem as lagrimas aos olhos, vendo tanta desgraça, mulheres e homens que tinham pequenos estabelecimentos chorando a sua miseria. Emfim só á vista lhe poderei fazer um quadro do que aqui se passou na vespera e dia de Natal, e que se apesar da cheia passar se está vendo.»