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Grandes tumultos na mina de S. Domingos

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Beja · Mértola · Vila Real · Espanha · Portugal Exterior / internacional · Governo Civil · Hospital · Interpretacção incerta · Telégrafo

Dizem-nos d’aquella localidade: «Das 10 para 11 horas do dia 3 do corrente deram-se os seguintes factos: Alguns contratistas da extracção do mineral, tendo acabado os seus trabalhos, dirigiram-se ao sr. D. Lucas, afim de que este lhes fosse medir, e lhes pagasse o que de direito lhes pertencesse. S. s.ª a principio recusou-se e só se resolveu quando as ameaças dos contratistas o bastante obrigaram. Marchou então s. s.ª acompanhado de 4 guardas e dois inglezes na direcção do tunnel, levando atraz de si talvez uns 150 a 200 homens, que todos clamavam para que lhes pagassem. Chegados ao tunnel, o sr. D. Lucas, que já previa as funestas consequências, permittiu que sómente entrassem na mina, para assistirem á medição dos trabalhos, cinco ou seis contratistas, e ordenou aos guardas que não deixassem entrar mais pessoa alguma. Os trabalhadores, que, segundo me dizem, receavam ser illudidos pelos contratistas, começaram a forçar a entrada do tunnel. Trava-se d’aqui a desordem: os dois inglezes que acompanhavam o sr. D. Lucas puxam cada um seu revolver e descarregam sete ou oito tiros, de que resultou ficarem alguns individuos feridos! Já a este tempo havia acima de 400 homens reunidos, os quaes tanto que ouviram os tiros, foi o mesmo que lançar polvora sobre brazas; os guardas que impediam a entrada do tunnel fugiram, e não sem difficuldade, indo alguns feridos; o sr. D. Lucas entrou então n’uma pequena casa que poucos metros distava do tunnel, mas para o interior da mina, fechando-a sobre si. Os trabalhadores pretenderam lançar fogo á casa e a poder de polvora. Estava já o rastilho a inflammar-se quando elle se entregou áquelles de cujas mãos ia ser victima! Morra e morra-se eram as palavras que se ouviam, e tanta pedra lhe arremessaram, juntamente com algumas pauladas, que o lançaram por terra semimorto! Recuperados os sentidos, o sr. D. Lucas exclamou que o não acabassem de matar, porque estava prompto a dar-lhes tudo quanto quizessem. Foi então que o cabeça de motim o salvou da morte, fazendo para este fim muitas e variadas sortes com um pau armado de choupa. Conduzido em seguida o sr. D. Lucas, para o hospital, fizeram-lhe dar vivas á Hespanha e Portugal, e aos barreneiros; (*) e d’ali, depois de uma breve cura, que os mesmos amotinados lhe fizeram, foi levado para o escriptorio afim de lhes pagar. Concluída a distribuição de 237 libras, não nos consta que repetissem mais insultos contra o sr. D. Lucas; os trabalhadores voltaram ao tunnel e por todo o dia e noite diligenciaram encontrar os dois inglezes que haviam disparado os revolvers, os quaes se tinham refugiado para o interior da mina. Porem, como elles sabiam bem de todos os quartos da casa aonde estavam, sahiram felizmente frustradas todas as diligencias que os tumultuosos fizeram. No dia seguinte estava tudo em socego; os srs. Mascarenhas, D. Lucas e mais inglezes, acompanhados dos guardas, desceram á mina para procurarem os dois inglezes de que já fizemos menção. Encontraram-os; tinham estado durante o dia e noite quazi cobertos d’agua.» O sr. administrador do concelho de Mertola, logo que teve noticia dos tumultos telegraphou para Beja dando parte do acontecido ao ex.mo governador civil que requisitou immediatamente ao general da 7.ª divisão uma força do regimento n.º 17, que n’essa mesma noite partiu para a mina. O sr. administrador ao mesmo tempo telegraphou para Villa Real de Santo Antonio para que lhe cedessem o destacamento de caçadores 4 ali estacionado, e feita a cedência partiu logo o vapor da mina para Villa Real, onde recebeu a seu bordo o destacamento com o qual o sr. administrador prendeu 10 dos amotinados, segundo as ultimas noticias que recebemos.