Dois espertalhões
Ha dias apresentou-se em casa de certo banqueiro de Paris, um indivíduo que declarou querer fallar ao dono da casa para negocio urgente. O negociante, apesar de ter muitas pessoas no seu escriptorio, mandou entrar o pretendente. —Meu querido senhor, disse este, lembra-se de mim? —Não tenho idéa de o haver encontrado. —Comtudo ha algum tempo emprestou-me 200$000 réis, que venho entregar-lhe. O negociante de tal se não lembrava; mas tractando-se de receber, disse logo: —É verdade, e tenho tantos negocios que por causa dos maiores me esquecem os menores. —Vejam, meus senhores, disse o desconhecido para os circunstantes: vejam que eu e este senhor estamos de accordo. Mas para que são tantas formalidades. Dê-me o dinheiro, eu dou-lhe recibo e acabou-se. —Não acabou, não senhor. Já que se lembra de me ter emprestado 200$000 reis, tambem ha de lembrar-se de que lhe deixei como penhor um chronometro que vale 500$000 reis. Queira entregar-m’o. O banqueiro viu o laço em que caíra, mas já era tarde. Por mais que negou ter recebido o relogio, não pôde convencer os circunstantes nem fazer calar o cavalheiro de industria que recebeu 500$000 reis, valor do supposto relogio. Ganhou 300$000 reis na especulação.