Revista da semana
Realizou-se a noticia que, no passado numero, démos de ser nomeado par do reino o sr. Roque Joaquim Fernandes Thomaz. O Diario de 3 do corrente trouxe a carta regia que eleva ao pariato o ex-presidente da camara electiva e uma portaria, datada de 20 de janeiro e publicada no mesmo numero da citada folha, ordena ao enfermeiro-mór do hospital de S. José que faça extrahir separadamente e por annos economicos as contas das despezas em debito pelo tratamento dos doentes das municipalidades, ou misericórdias do reino, e as remetta aos governadores civis, para que sejam incluídas nas despezas annuaes d’aquellas corporações. Pelo ministerio do reino foi expedida uma portaria louvando dois empregados pelo relatorio que fizeram sobre a exposição do Porto, e pelo da fazenda se annunciou o naufragio da barca prussiana Neptunes. El-rei regressou a Lisboa depois de inaugurar a estatua do sr. D. Pedro V que os artistas portuenses levantaram na praça da Batalha á memoria do «amigo dos que trabalham» e de haver encerrado a exposição internacional. Acerca da inauguração da estatua diz o nosso collega do Braz-Tisano que a ceremonia teve lugar pelas 2 horas da tarde em que el-rei chegou e tomou assento no pavilhão em frente do monumento, tendo a commissão d’artistas uma allocução a que sua majestade se dignou responder. Findo o discurso descobriu el-rei a estatua subindo ao ar grande numero de foguetes, salvando as fortalezas, apresentando armas as tropas da guarnição e tocando as musicas o hymno do sr. D. Pedro V. Em seguida assignou-se o acto retirando-se el-rei com a sua comitiva e indo para a egreja dos Congregados na qual foi cantado um solemne Te-Deum. As ruas do transito estavam vistosamente embandeiradas; sobresahia porem a todas pelos festões e symetria dos mastros a de Santo Antonio. Mais dois folhetos sobre o casamento civil appareceram esta semana. Um intitula-se O casamento civil perante os princípios, e é seu author o sr. D. Antonio da Costa; o outro tem por titulo O casamento civil reprovado pela carta, e é escripto pelo sr. Alves Ribeiro. Nem um nem outro tem valor. O sr. presidente do conselho declarou nas camaras que não havia modificação ministerial e que a harmonia entre os conselheiros da corôa era a melhor. Diz-se que o general Prim e os officiaes do seu estado maior ficam em Lisboa por um anno. O’Donnel, o revolucionario de Vicálvaro, vae desempenhando-se do brutal compromisso que espontaneamente contrahio no senado hespanhol. O reinado do terror e da immoralidade official está em todo seu apogeu, porque emquanto o sangue dos livres é derramado na Fuente castellana, os suissos, os miseraveis que trabalharam para suffocar o grito de Aranjuez e Ocanha são elevados ás primeiras dignidades e cobertos de honrarias. Crivam-se de balas as costas dos liberaes e enchem-se de veneras os peitos dos que sustentam a tyrannia! Que infamia! Os espectaculos de sangue succedem-se no reino visinho sem interrupção. No dia 3 do corrente teve lugar o ultimo. Espinosa, capitão do regimento de Figueras, mancebo na flor da vida, esposo e pae, lá foi sacrificado em honra da tyrannia. Não valeram ao infeliz nem as supplicas que sua esposa dirigio ao throno, nem as que muitos deputados e representantes de associações fizeram ao duque de Tetuan. Naquella alma rachitica, naquelle espirito arido e vingativo não houve compaixão, e a sentença executou-se pela necessidade de se dar um exemplo! Custa a crer que em pleno seculo XIX haja um presidente do conselho que declare que para castigar revolucionarios é necessario fuzilal-os, para se dar um exemplo. Mas o duque de Tetuan engana-se porque em Hespanha são frequentissimos esses exemplos e comtudo as revoluções não cessam nem cessarão porque não é com scenas sanguinarias, nem com sentenças de morte que os povos se educam e as nações se moralisam. Nos paizes verdadeiramente livres, e que estão quasi no ultimo grau de perfeição a que aspiram, a pena de morte está extincta. Triste exemplo que vae levar a dor e o lucto ao seio de muitas familias! Triste exemplo, que deixará uns na orphandade, outros na viuvez e a todos a condemnarem aquelle que lhes roubou pae e marido! Tristes exemplos, mas mais triste será se as nações, em que elles teem logar continuarem impassiveis e não adiantarem a hora da sua regeneração. Lembrem-se todavia os que hoje mandam fuzilar que amanhã podem commetter o mesmo crime que os levou a proferir uma sentença de morte; então conhecerão que uma politica tolerante e toda de paz produz melhores resultados do que a politica tão desgraçadamente seguida no reino visinho. Na camara dos pares por não haver assumpto para discutir, não houve sessão. Na camara dos deputados discutiu-se e votou-se o contracto Salamanca. A favor do contracto pronunciaram-se 94 deputados e contra 30. Na mesma sessão tomaram assento os srs. José Luciano de Castro e Andrade Corvo.