Voltar ao arquivo
Artigo

O Povo em Côro

Cultura e espectáculoPolítica e administracção do EstadoSociedade e vida quotidianaConcertosEleiçõesPobres e esmolas
Alentejo · Itália · Portugal Exterior / internacional · Interpretacção incerta

Que delicada harmonia se ouve! Que é isto? Um rancho, que passa, d’homens e moços e mininos, como se ás vezes forma em povos d’Alemtejo, sem eleição nem proposta nem discussão nem votação mas, espontaneamente; como o povo costuma na defêsa da patria e no bem e no mal que o instinto lhe aponta. E como succede em Italia, talvez, em noutes bellas; que Portugal e Italia são irmão e irmã e, o céu, o mesmo. Delicioso canto! Depois d’uma voz lisa, de garganta ainda húmida do leite maternal, soa a turba em duêto afinadissimo e de tal modo trocando a primeira e segunda que, sendo só ignorância d’arte, por ingenhosa combinação de mestre se tivera a não ser musica e musicos e letra, tudo, manifestamente popular. Vai-se o côro volante ouvindo cada vez menos; desvanecendo-se a onda harmoniosa; e do que deixa apoz si (que é não sabemos que saudosa sympathia pelo povo portuguez e todo este nosso Portugal) uma coisa havemos d’apanhar em memória desta noute; assim apanhassemos também a musica! É uma dessas quadras amorosas, como são todas as quadras e cantigas do nosso povo, mas amorosas d’um amor casto e melancholico, puro e tímido, ardente e duvidoso, sem aquella desmedida e descomedida frescura e confiança das canções hespanholas, próprias d’um coração repleto e, por isso, tão pobres d’idealidade e intima poesia.