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Artigo

O Bejense e o correio lusitano

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Almodôvar · Braga · Coimbra · Lisboa · Silves · Portugal Correspondência · Interpretacção incerta

A Redacção do Luso escreve-nos: «Ha duas semanas que não recebemos o Bejense: se continuar a falta intendemos que não querem trocar.» O Bejense não sai d’uma balança, sai d’uma idea; quer sempre trocar; não mede o formato nem pesa a materia; aos que estão abaixo dá; dos que estão acima recebe; com os que estão a par troca. Não segue pois os principios administrativos de muito Sal da terra e muita Luz do mundo: semanal ou mensal, annual ou secular, em toda a folha periodica vê um companheiro de jornada. Coisa admiravel que das folhas diarias do paiz só a mais partidaria do obscurantismo e ultramontana, a mais avessa ao povo e mais realista, a mais despotica—a Nação—seja a que tem sempre trocado com o Bejense e nem em suas largas sincopes lhe tenha suspendido o favor! Presta-se isto a meditações profundas. «Une faut dire la verité qu’aux gens de bien», dizia o democratico Voltaire... O Bejense reconhece quanto lhe excedem, em materia e forma, muitos dos seus collegas; e aos mais subidos, aos pontifices maximos do jornalismo, se em sua admiração profunda não consagra os 36:000 annos da contemplação do Brahma, é por falta de... espaço. Mas é dizer o que elle faz: troca com tudo, desde a Encyclopédia Methodica até á mortalha de papel; e suspender a remessa, nunca suspende. A chave do mysterio é a da mala do correio. O correio lusitano conta-lhe só á minha parte as gentilezas seguintes: I—Pede-me o Chaves d’Alcantarilha que lhe remetta de Coimbra a Veterinaria de Macedo Pinto: parece que havia no caminho muito animal enfermo; não chegou lá. II—Mette alguem no correio dentro de carta sua uma letra de 20 ou 30 libras, que ao dr. Oliveira de Lisboa mandava um seu cliente; o cliente, o sacador, reconsidera e no intervalo que vai de Silves a Almodovar saca da inviolavel mala letra e carta. Tambem não chegou lá. III—Sou altamente obsequiado em Braga pela familia Lopes, e uma das senhoras tem a bondade de me pedir que lhe desse noticias minhas. Chegado a Coimbra foi o meu primeiro cuidado, mas... tambem não chegou lá. Recebo uma queixa e—nova carta. Nada. Eram os corvos da Arca no diluvio. Segunda queixa—terceira carta; pedindo ao cavalheiro que sustinha o passo com tantos feitos d’armas a razão da sem-razão por que não abria, lia, fechara e deixava chegar a carta ao seu destino. A nada disto o bruto se movia! Como não podia comprar um chicote e ir feito postilhão de Coimbra á terra do Bom Jesus, assim fiquei certamente conceituado o maior vilão do mundo, graças... ao correio lusitano. IV—Já escaldado escrevo que me segurem em Silves um tratado de Musica, para o offerecer em Coimbra a Chico Calça: parece que as soquilhas tambem teem a sua afinação. Não chegou lá. Escrevo, informo-me e dizem-me de Messines que—como eu não perdesse o bilhete—estava a patria salva. Bilhete e livro tinham tudo ficado tão seguro, que não houve forças humanas que os despegassem até hoje. Presta-se isto a meditações profundas.