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Artigo

Correspondencia particular (Lisboa 45 de abril)

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Leiria · Lisboa · Portugal Correspondência

Pouco satisfactorias são para o paiz as noticias que hoje tenho o dar-lhes. O decantado contracto Debrousse foi apresentado ás cortes, pelo sr. Fontes, porque o sr. conde de Castro não teve coragem para isso. Este contracto é prejudicialissimo para a nação; é como um cancro que vem acabar de roer as entranhas do nosso thesouro; n’uma palavra, para se saber a natureza de tal contracto, basta que lhes diga que é patrocinado pela sr. A Augusto Teixeira de Vasconcellos redactor da Gazeta de Portugal. A reprovação é geral, e todos pasmam de ver a munificência do nosso governo, pois muita gente havia, e eu era um d’elles, que tinha algumas esperanças no actual gabinete. O tempo tem-me-os desenganado. O governo proclamou economias, mas em lugar de as realisar, propõe para as viúvas daquelles que, emquanto viveram, receberam pingues ordenados, por alguma cousa que fizeram, do muito que lhes competia fazer, avultadas pensões com que aggrava o estado do nosso thesouro. O paiz meus amigos é só propriedade de quem tem títulos nobiliarios. O lavrador, o proprietário, e o artista, que muitas vezes prestam nação bons serviços, se morrem e deixam a sua familia na orphandade e na miseria, nem se lembra d’elles! Mas lembram-se e dão-se pensões a quem a ella não tem direito, e quem d’ellas precisa! Isto assim não vai bom. Lembre-se o governo que indo por este caminho desacredita-se a si e anima o paiz. Agora corre que se vão a tornar os pinhaes de Leiria; se tal vejo acabo de descrer de tudo e de todos. Agradeço a rectificação que fizeram á minha correspondencia na parte em que eu chamava ao sr. Fortunato representante d’essa cidade... (continua conforme OCR; termina em:) Diz-se que o sr. Mendes Leal será nomeado conselheiro de estado extraordinario no lugar que ficou vago pelo fallecimento do conselheiro Lopes de Vasconcellos. G.