Poesia
Pedem-nos a publicação da seguinte. FLORINDA: Pois visto que dizes, que eu sou roubador / Por ter o orvalho bebido da flor; / Por aproveitar um tão bom ensejo / De dar-te na face um avido beijo; / Assim o insecto será roubador, / Quando bebe a vida no calix da flor? / A cousa mais simples que ainda encontrei, / Tocar-te na face, como eu te toquei! .. / Mas custa-me a crer, que tal te enfadasse... / Oh! não dera o beijo, se eu o suspeitasse, / Mas dize, d’aqui que mal pode vir? / Que inconveniente te póde provir? / Acaso não sabe já toda a aldeia / Que amor nos estreita com forte cadeia? / Teu pae não sorri ao ver-nos córar / Se nos surpreende no adro ao luar? / A mãe, que te deu o leite em seu seio, / Acaso não mostra o menor receio? / Temei a falca maldizenteira, / Das fracas virtudes só destruidora?... / Eu já me esquecia infligir-te a dor, / Em te haver chamado assim roubador. / Ha! foi hontem quando cheguei mesmo aqui, / E lá inda longe chamava por ti: / Que noite tão bella! que lua tão linda! / Que estrellas tão vivas, que estavam, Florinda! / O echo só foi quem nas respondeu, / E após o silencio, ai! m’entristeceu. / Mas vi-te apressado correndo p’ra aqui, / E exultei contente apenas te vi. / Estavas aqui n’esta pedra reclinada, / Cos olhos fechados, talvez... acordada / Mas eu cheguei bem no pé do teu rosto, / E vi que dormias em tão duro encosto. / Olhei-te e dormindo sorrias d’amor!... / Sentei-me... d’bindei... ai sim fui traidor!.. / Beijei-te os cabellos em aureos anneis, / E dei-te nos labios... seis beijos, ai! seis... / Oh! fui confiança, e peço perdão, / Mas tambem não quero me chames ladrão. José Eduardo.