(Continuação)—Quando demos a noticia de haver sido suspenso do exercício de suas funcções o sr. administrador central do correio de Beja, Alexandre Pinto da Fonseca Vaz, promettemos esclarecer o publico acerca do nojento trama que nas trevas urdiram, contra sua ex.ª, uns miseráveis que querem passar por homens de bem e defensores da moralidade, mas que não são mais de que uns vis e abjectos calumniadores. Sobre o que se deu e está dando com o sr. administrador central do correio de Beja, fizeram-se no Jornal de Lisboa, uma das folhas mais sisudas e honestas do paiz, revellações importantissimas. A elle vamos buscar o que julgamos necessário para illucidar o publico começando deste modo a desempenhar-nos do compromisso que contrahimos ha tempo. Lê-se pois na folha a que nos referimos: «O sr. Lessa director geral dos correios, assás conhecido pela sua índole despotica, é inimigo-capital do administrador central do correio de Beja, o qual tendo sido nomeado para este logar contra vontade e diligencias do sr. director tem este diligenciado acintosamente por todos os meios, ainda os menos airosos, compromettel-o. Não o tendo podido conseguir legalmente desceu para esse effeito a mancomunar-se com um pretendente ao logar; arranjaram-se cartas anonymas: sobre ellas fundamentou-se um inquerito ou visita á administração por um empregado especial ad hoc creatura intima do director geral.» Se isto é exacto forçoso é confessar que o sr. Lessa andou n’este negocio menos decentemente, e que a proverbial rispidez de sua ex.ª e a sua moralidade, tão apregoada, não passam de palavras ocas. Quem desce a guerrear um empregado, seu inferior, por taes meios e com taes armas desprestigia-se. Que espera sua ex.ª, a ser exacto o que se diz, que façam esses com quem se mancomunou? Se elles se desviarem da senda que o bom empregado deve trilhar como quererá obrigal-os a entrar nos seus deveres? Que força tem para isso? Nenhuma. Não nos alarguemos porem em considerações, deixemos ao publico os commentarios e continuemos a ouvir o que se diz no Jornal de Lisboa. Conta-se em seguida a maneira como se procedeu á syndicancia sobre actos, mais particulares do que públicos, do administrador central do correio d’esta cidade, e publica-se depois, para se provar que no inesperado balanço que se deu ao cofre se achou estar tudo na melhor ordem, o seguinte documento: «Aos trinta e um dias do mez de julho de mil oitocentos sessenta e seis, nesta administração central do correio de Beja, sendo presente o official visitador da direcção geral dos correios, Carlos José da Horta Veiga, em visita de commissão n’esta administração, bem como o administrador Alexandre Pinto da Fonseca Vaz, o fiel thesoureiro, Adriano de Sousa Affonso, o official de primeira classe encarregado da contabilidade, Francisco Sérgio da Matta Veiga, comigo Gustavo Carlos de Sousa, praticante da mesma administração, afim de ter logar o balanço ao cofre, segundo o determinado no artigo quarenta e um das instrucções geraes de contabilidade de vinte e dois de fevereiro de mil oitocentos cincoenta e quatro, e sendo em seguida aberto o cofre, e verificado por meio de contagem a existência dos valores nelle arrecadados, se encontrou em dinheiro de metal a quantia de quinhentos e onze mil cento e setenta e dois reis, que com a de reis trinta e oito mil seiscentos e quarenta, vencimento dos carteiros na semana de um a vinte e oito de julho do corrente anno, e a de reis cinco mil trezentos e trinta e quatro, premio de desembolso pelos sellos que compraram no dito mez os directores de correios e depositarios das caixas de pequena posta; verbas estas ainda não abonadas pela direcção geral dos correios prefazem o total de reis quinhentos e cincoenta e cinco mil cento e quarenta e seis, que é exactamente o saldo que demonstra o livro do cofre; e bem assim se encontrou em sellos o valor total de reis um conto quatrocentos e oitenta e tres mil quinhentos e cincoenta, proveniente de sette mil quatrocentos e deserto sellos de taxa de cinco reis, dez mil quatrocentos e noventa dos de dez reis, trinta e quatro mil trezentos e quarenta e oito dos de vinte e cinco reis, mil novecentos e trinta e cinco dos de cincoenta reis, tres mil quinhentos e vinte e cinco dos de cem reis, e duzentos e oitenta dos de cento e vinte reis; quantidades e valores que tambem demonstra o livro—D—caixas de sellos. Depois do que, foram todos os ditos valores novamente arrecadados no cofre, e logo foi pelo dito official visitador, Carlos José da Horta Veiga, intimado o despacho do excellentissimo senhor conselheiro director geral dos correios de trinta d’este mez, ao respectivo Alexandre Pinto da Fonseca Vaz, pelo qual o mesmo é suspenso do exercício das funcções do dito logar, pelos motivos declarados no referido despacho, de que lhe foi entregue uma cópia, sendo por este motivo, e em conformidade com as ordens do mesmo excellentissimo senhor, entregue a administração ao official de primeira classe, Francisco Sérgio da Matta Veiga, o qual fica com uma chave do cofre, o fiel thesoureiro com outra, e a terceira foi entregue ao official de segunda classe, Antonio Gomes Pereira, que fica tendo a seu cargo a contabilidade, e assistiu tambem a todos os actos praticados. E por esta fórma se deu por concluido o balanço, e feita a entrega da administração. E de tudo para constar se lavrou o presente termo que depois de por mim ser lido e se achar conforme foi assignado pelos supramencionados. E eu Gustavo Carlos de Sousa, praticante d’esta administração que o escrevi e assigno, Carlos José da Horta Veiga, Alexandre Pinto da Fonseca Vaz, Francisco Sérgio da Matta Veiga, Adriano de Sousa Affonso, Antonio Gomes Pereira, Gustavo Carlos de Sousa. Está conforme. administração central do correio de Beja, em 1 de agosto de 1866. O official de segunda classe,—João Silvestre da Fonseca Junior.» É importantissimo este documento e responde cabalmente ás accusações feitas nos anonymos de que o sr. Vaz substituia, por vales, os dinheiros públicos arrecadados no cofre. Não gostarão por certo que se lhe dê publicidade os inimigos de sua ex.ª. Tenham paciência. Soffram que tambem a moralidade, por sua causa, padece. Mas ha ainda no artigo d’onde lemos copiado estes trechos outros mais importantes. São estes: «O administrador requereu ao sr. ministro para ser ouvido, sobre as accusações que lhe eram feitas, negando formal e positivamente os fundamentos da suspensão; Veio a Lisboa, procurou fallar ao ministro, e instou para ser ouvido; pois ha quasi um mez que aquelles factos se deram e ainda nem o requerimento teve despacho, nem o ministro se dignou attender o accusado! Ao mesmo tempo que isto se dá continua o director geral a empenhar toda a sua influencia e a dos seus amigos para com o ministro, afim de lhe sanccionar a sua arbitrariedade. Os papeis foram ao ajudante do procurador da coroa no ministerio das obras publicas, e n’elle logo se agarrou o director geral, pretendendo a todo o custo fazer com que o citado administrador seja exonerado. O que porém se não quer por modo algum, é que elle seja ouvido e que apresente a sua defesa. Teme-se que o administrador por justo desforço da sua honra e dignidade offendidas, se apresente e diga coisas pouco lisongeiras ao director geral e aos seus seides.» Sempre em tudo o sr. director geral! Sempre elle que nesta questão devia elevar-se a descer até nivelar-se aos calumniadores! Mas se sua ex.ª lhe não repugna isso, se lhe não imporia tomar parte activa n’este negocio, o que não poderá conseguir, á não se atropellar a lei e tudo quanto ha de justo e honesto, é que o sr. Vaz seja condem nado sem primeiro ser ouvido. D’isto só se fazia, e não era sempre, no tempo da inquisição e no reinado do sr. D. Miguel; mas hoje que nos regemos constitucionalmente não é possível. Esses santos usos cahiram na Asseiceira e deram o arranco extremo em Evora-Monte. Tentam ressuscital-os? Fazem mal porque as consequências podem ser mais serias do que suppõem. No meio de tudo isto lemos fé que o sr. Vaz ha de alcançar um completo triumpho sobre seus inimigos. Ao ministerio das obras publicas preside um cavalheiro respeitável e quem por costume administra inteira justiça. Confiamos n’elle.
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