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Artigo

Correspondencias—Ferreira 2 de setembro de 1866

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Lisboa · Portugal Correspondência · Igreja · Interpretacção incerta

Sr. redactor.—Em cumprimento da minha promessa feita na anterior correspondência vou apresentar ao publico o esbôço historico da ultima eleição municipal. Disculpem-me os sabichões cá da terra se o faço sem os enfeites da rhetorica que nunca estudei e nem de taes conhecimentos preciso no caso presente, pois me parece que a verdade não deixará de o ser mesmo quando se apresente sem arrebiques e quando só assim a pode dizer quem não é doutor e nem a tal tem aspiração. Disseram, em tempo, que nesta eleição tinha o partido democrático conseguido uma assignalada victoria sobre a aristocracia, e quem isto lêsse provavelmente imaginou que effectivamente se dera luta entre aquelles dous elementos sociaes: mas tal não aconteceu, porque aqui não figuram estes ou aquelles principios, esta ou aquella escola politica: aqui debatem-se quasi sempre, como ainda agora, interesses particulares e ambiciona-se o poder para satisfação de ruins paixões, de vinganças mesquinhas, muito embora se acobertem com o desejo de bem gerir corrigindo abusos. A camara transada era animada de boas idéas; mas necessitava de ser coadjuvada pela auctoridade administrativa. Para levar a effeito os seus planos eram-lhe indispensaveis os meios que só podia haver dos contribuintes: destes muitos se descuidam de pagar em tempo competente, terminado o qual começa a acção da auctoridade para obrigar os relapsos; mas esta acção é que fallou sempre, apesar das promessas vindas mais de cima. A camara instava, o administrador por birra e não sei porque mais a nada se movia! ninhuma actividade, mas muita palavra e nisso ninguem o excede, mas nenhuma idéa aproveitável: aquella dispensando-lhe o palavriado, com grande despeito da parte do orador, e exigindo energia; este saboreando os deleites da inercia, curtindo preguiça e alimentando a dos seus subordinados, um dos quaes com tudo merece contemplação pelos seus padecimentos: eis aqui já um grande elemento de opposição á camara e esta por tal forma embaraçada no seu desejo de emprehender alguma cousa util, de modo que só com muito trabalho e muito desassossego conseguiu dar um grande passo, tomou contas rigorosas ao ex-thesoureiro que assim ficou alcançado em porção pequena quantia, pela qual ainda hoje é demandada. Foi então que tambem se lembraram de lhe exigir o dinheiro da que já desconfiavam ser infiel depositario, e do qual só entregou parte, confessando por meio d’uma carta que assignou que tinha disposto para seus gastos da importante quantia de novecentos a tantos mil reis, abusando assim da confiança que elles, então n’elle tinham depositado! Tomadas as convenientes medidas de caução dispensaram-lhe os serviços e aqui recrutou a auctoridade mais um elemento inimigo contra a camara e sua clientella, porque o não deixavam comer mais, gastar, consumir ou o que em melhor portuguez se quizer que se diga. Parecia mal á camara que se executassem os devedores por pequenas quantias, tendo por isso que pagar custas que não estão em proporção e não era de decoro, nem de justiça que, ao passo que se executavam os pobres miseraveis, se poupassem os devedores de grandes quantias, havendo-os, um de setenta e tantos mil reis; outro, parente proximo do administrador e hoje um conspicuo vereador da camara, que deve ainda, apesar da sua posição official, os seus quarenta e oito mil e tantos reis; outro devedor de trinta e tantos mil reis e cuja execução começou, mas parou logo, porque, disse-se, que recommendações vindas d’esta cidade trancaram a roda do processo que de todo emperrou. Mais um de quantia superior a vinte mil reis; e o tal a quem já venderam as talhas, que o comprador pagou, mas a divida está em aberto e os conhecimentos por isso ainda fazendo carga! Outro, outro e outro... que são muitos os devedores privilegiados e com processos agachados, afim de por este meio se pagarem obrigações... e o cofre do municipio tanto de meios para occorrer ás suas despezas e por isso tambem os empregados no desembolso de vinte mezes dos seus ordenados! e alguns d’elles querendo antes pedir adiantamentos por conta, do que faturem o seu dever conseguindo desse modo a justas retribuição dos seus serviços! E só de tarde em tarde dão algum signal de vida, mas para que? para se proceder como ainda ha pouco, enviando-se uma deploravel ao administrador do concelho de Vianna afim de obrigarem as religiosas d’aquella villa a pagarem um quartel de congrua, importando as custas em quatrocentos e setenta reis! É pena que se não publique a carta que aquelle magistrado dirigiu a um seu amigo encarregando-o de satisfazer tudo, pois que as cordatas reflexões que faz sobre tão apoucado modo de proceder serviriam de severa, mas justa lição de cortezia a quem tão pouco sabe guardar as conveniencias. Continuando, dirá mais que a apropriação que a camara fez d’um terreno que era seu e em que mandou edificar uma casa d’escola que não tinha, mas do qual gozava, havia muito tempo, um influente da situação ainda mais indispoz este e sua familia e outra d’ellas. As instrucções para se tomarem e analysarem as embaraçadas contas da junta de parochia e que ainda até hoje se não deram aggravam mais o odio de um membro da mesma, que já estava indisposto por se faltar nos taes setenta mil reis de derramas. A impunidade que desejavam e de que hoje gozam uns parentes d’um vereador que a muitos prejudicam devassando-lhes as propriedades com o seu gado, gabando-se até do que fazem porque tem a justiça de casa. A promessa feita a um parente de só lhe livrar um filho do recrutamento, promessa que se não pode cumprir, tendo o mancebo de ser resgatado pelo dinheiro, tinha tambem granjeado um activo galopim eleitoral, que de mais a mais desejava mostrar a sua gratidão a alguém que a um seu tinha feito não pequeno favor, havia pouco tempo. Um protesto de vingança contra o homem que repeliu com dignidade suggestões que se lhe dirigiram para que deixasse de cumprir o seu dever veio então completar um crime, bem celebre e notavel procedente que aqui se inaugurou. O desejo d’armar e dispôr as cousas de modo que se pudesse lançar mão do dinheiro que a camara tinha em deposito e que em vez d’este pirateado podia servir para pagar certas dividas em Lisboa... fallaremos a isto mais devagar. Todas estas circumstancias que levo mencionadas e outra de que agora me não recordo, mas todas tendentes a satisfazer vinganças ou interesses particulares deram logar a uma colligação monstruosa, inaudita da auctoridade com toda a sua influencia para conseguir o resultado desejado, completamente em opposição com o bom senso, a justiça e imparcialidade que pretendia apresentar um voto de gratidão á camara que, quando nada mais tivesse feito bom, tinha ao menos vencido a grande campanha das contas do thesoureiro, salvando ainda uns poucos de centos de mil reis do poder d’aquelles soffocarem a usacia, mostra n do assim quanto zellava e bem administrava o patrimonio do municipio que é o patrimonio de nós todos os contribuintes. Eis-aqui tem sr. redactor com verdade o modo por que as cousas se passaram; depois do que esta boa gente conscia do que vale e do que pode, imaginando a sua vontade superior a todas as leis vae satisfazendo as suas paixões e passando por cima de todas as conveniencias, julgando-se em paiz conquistado, sem que isto desperte a attenção dos poderes superiores ou finalmente de quem pudesse ter-lhe mão, para se evitar o triste futuro que a esta infeliz terra necessariamente lhe deve provir deste estado de cousas na tal insignificância para quem sinceramente desejar o engrandecimento do seu reino moral e material e que só poderá conseguir dominando-se o trabalho e a industria honrada e licita, a moralisação e o temor de Deus objectos que por aqui andam muito esquecidos e nada respeitados, campeando desembrodos os vicios, principalmente o da embriaguez e o jogo em todas as tabernas e outras casas aonde muitos pais de família vão dar, alem da vergonha e os bons sentimentos, aquillo que tinham para sustentação dos seus filhos habituando-os para cousas ciimes de que muita gente dá noticia, havendo alguns roubos e sendo poucas as noites em que se não ouvem gritos de desordens apparecendo até o effeito d’estas mas de que a auctoridade não tem cuidado nenhum, porque diz a sua preguica de nada lhe dá parte! Estas são os factos; refutem-nos se podem, mas discutam de modo conveniente e como se usa entre gente civil e cortez, por que nós para comprovar o que temos dito temos centenas de testemunhas que lamentam tão triste perspectiva, e a quem falta animo bastante para uma acção forte, mas prudente e baseada na lei para uma reabilitação que é indispensavel se quizerem evitar que esta terra perca a cathegoria de trabalho com as suas tristes consequências e de que ha bem distantes provas muito perto de nós. Longa vae esta correspondência e por isso ficaremos hoje por aqui, promettendo, comtudo, continuar, se assim o julgarmos necessario, porque ainda se não disse tudo.