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Europa · Portugal Exterior / internacional · Relatório

Eis o relatorio que sobre negocios militares dirigio a el-rei o sr. Fontes Pereira de Mello, actual ministro d’estado dos negocios da guerra. «Senhor.—Ha mais de meio seculo que terminou uma das maiores e mais prolongadas guerras que tem havido na Europa, e nessa tremenda lucta coube a Portugal não pequena parte de fadigas. Ao lado, ou em frente dos primeiros exercitos do mundo, o soldado portuguez combateu dentro da patria e fóra d’ella, mas sempre em defesa da independencia nacional, com a bravura e a disciplina de que ficou boa memoria, e de que deram sempre testemunho honroso alliados e inimigos, com justa imparcialidade. Muitos annos de campanha, a experiencia e a instrucção adquiridas num grande theatro de vastas operações militares, uma organisação que podia servir de modelo debaixo do ponto de vista de defensa do paiz, e uma disciplina severa, crearam um exercito aguerrido, que honrou a bandeira da patria em cem batalhas. O enthusiasmo da nação levou todos os seus filhos validos ás fileiras do exercito, e da milicia; a instrucção, e a disciplina, organisaram a victoria. No longo periodo de cincoenta annos, que vae decorrido em seguida á conclusão da guerra peninsular, ainda na quadra heroica das campanhas da liberdade, o exercito portuguez se mostrou á altura do seu nome e das suas tradições. A experiencia readquirida nos campos de batalha, a disciplina, que nasce do dever e do pundonor e a coragem do enthusiasmo, fizeram milagres. Se ao exercito coube no principio d’este seculo a honrosa missão de combater em defesa da independencia, não menos se podem ufanar os soldados que serviram ás ordens do augusto avô de Vossa Magestade, aos quaes coube a sorte de escrever com o sem proprio sangue, consquistando e firmando as instituições livres, uma das paginas mais brilhantes da historia do seu paiz. Ha trinta annos que findaram estas campanhas, e ha vinte se pôde dizer que temos estado quasi sempre em profunda paz. Entregues ao justificado cuidado de desenvolver e melhorar as nossas condições economicas, esquecemos e descuramos as cousas militares. Temos soldados valentes, e officiaes com brio e coragem, porém a instituição não está na sua altura, e os elementos materiaes que lhe devem corresponder fallccem completamente. Causaria lastima enumerar aqui a mingua de recursos de que podemos dispor para a organisação completa, mesmo em pé de paz, do nosso pequeno exercito de trinta mil homens. Para a reorganisação em pé de guerra, que corresponde a mais do duplo d’esta força, pôde dizer-se que falta quasi tudo; para o levantamento em massa, que é o complemento necessario do nosso systema de defesa, podemos contar apenas com o nunca desmentido enthusiasmo nacional. Despendemos 3.500:000$000 réis com o nosso exercito permanente, e não o temos nas condições regulares e normaes d’esta importante instituição social. Limitado ao serviço de policia, que lhe é improprio, e ao monotono e acanhado serviço de guarnição e de quartel, falta ao exercito tudo quanto é indispensável em armamento e exercício, para o habilitar a desempenhar as mais nobres e elevadas funcções que pertencem á força publica em qualquer paiz. E se a este definhamento em relação ás cousas materiaes não tem correspondido o abatimento moral na mesma escala, deve-se isso sem duvida aos esforços dos meus benemeritos antecessores, ao zelo dos generaes e officiaes do mesmo exercito, e á indole e excellentes qualidades militares que são tradicionaes no soldado portuguez. Não é exagerada a somma que nos custa o exercito, se a compararmos, proporções guardadas, com a que despendem outras nações da Europa, porém é excessiva e injustificavel, se a consumirmos inutilmente. [...]» (texto segue conforme OCR nas paginas 2-3; onde o impresso/OCR estiver truncado, marcar [ilegível].) [ilegível]