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BEJA 2 DE NOVEMBRO

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Beja · Lisboa · Porto · Portugal Correspondência · Igreja

Revista da semana—Está levantado o acampamento de Tancos e por este anno concluídas as grandes manobras. As tropas regressaram já á capital e no domingo, juntamente com as que estiveram fazendo a guarnição de Lisboa, devem ter uma grande parada. Hade ser um bom espectaculo para o povinho. Do que se fez em Tancos, que pouco foi, ficou-se conhecendo bem a insciencia de alguns paspalhões agaloados que vencem soldos de general e tem esse posto officialmente, mas que nem para mandarem uma companhia servem. Quanta firmeza os soldados mostraram tanta imperícia se vio na mesma parte d’aquelles que os commandavam. Isto porem não admira, o contrario, se se desse, é que surprehenderia. Uma carta que o sr. duque de Saldanha dirigiu ao sr. Latino Coelho explicando qual a razão porque não foi ao Porto assistir á inauguração do monumento de D. Pedro IV, tem sido a ordem do dia. Uns commentam a impressão que um tal documento fez nas diversas regiões políticas e outros discursam ácerca das explicações que teem sido dadas sobre o caso. Havemos de publicar tambem a carta do marechal e reservamo-nos para então expormos o que entendemos. Comtudo sempre diremos, aqui baixinho, que se toda aquella ladainha de batalhas, combates, feitos brilhantes, desconsiderações e... modéstia, for tão exacta em tudo como no que lá se diz a respeito de Silva Carvalho, Sertorius, barão de S. Cosme e do batalhão francez, é uma peça digna de figurar no Almocreve das petas. Ainda ha rumores de recomposição ministerial e esta semana começaram alguns periódicos a tractar da projectada reforma administrativa. No artigo de fundo, baseando-nos nas informações que podemos colher, dizemos tambem algumas palavras sobre o assumpto. Acaba de dar-se um facto que devemos registrar e que muito mais abona ainda o sr. procurador geral da corôa cuja rigidez de princípios é bem conhecida. O sr. Alexandre Pinto da Fonseca Vaz, como é sabido, requereu para que se lhe instaurasse processo, e deferido o seu requerimento, a immensa papelada foi enviada ao sr. procurador geral o qual examinando-a a devolveu para o ministerio das obras publicas dizendo que não encontrava motivo pelo qual intentasse processo contra aquelle a quem respeitava. Que dirão a isto os perseguidores do sr. Vaz? E o sr. ministro das obras publicas que fará? Reparará a injustiça que praticou? Partiu para o Minho o sr. duque de Saldanha. No Diario não encontrámos cousa digna de menção. Diz-se que o sr. Martens Ferrão tem prompto o seu projecto de reforma administrativa e que o submetterá já á approvação do conselho de ministros. Consta-nos que é largo o trabalho do sr. secretario de estado dos negocios do reino e que se for approvado em côrtes, como é de esperar, fará uma revolução na machina administrativa fazendo-a funccionar por systema inteiramente novo. Dizem-nos que a reforma trazer-nos-ha a descentralisação, que os conselhos de districto serão compostos de bacharéis formados em direito, que ás municipalidades serão dadas mais largas attribuições, que o pessoal administrativo terá augmento de ordenado e reforma e que alguns districtos serão supprimidos. Ora não tendo nós circumscripção parochial nem de concelhos accommodada ás necessidades e conveniências dos povos e da administração e ressentindo-se a dos districtos, como muito bem diz o nosso illustrado collega do Jornal do Porto, desta falta mal pode emprehender-se a reforma a respeito destes á mingua de base em que assente. Supprimir districtos, antes d’aquella circumscripção e prevalecendo a actual divisão territorial, é de algum modo imaginar castellos no ar, ou quando muito edificá-los sobre areia movediça, perdendo-se tempo e trabalho, para ve-los cahir tão depressa como se constroem. Reconhecemos a necessidade de supprimirem alguns districtos em que não vemos razão de ser senão a viciosa circumscripção das freguezias e concelhos quinhoando por tanto o mesmo vicio d’origine; mas evitai-o ou removel-o por uma reforma com respeito aos primeiros essencial se torna começal-a pelos segundos e para esta fallecem todos os elementos indispensáveis; porque se exceptuarmos a triangulação geodesica, que suppomos quasi concluida, tudo o mais que possa haver, para nada serve, pela incompetencia das pessoas a quem foram commettidos tão importantes trabalhos, a respeito da inutilidade dos quaes, mais que ninguém deve estar convencido o sr. Martens Ferrão, se por ventura, como suppomos os tem consultado e examinado. É isto o que entendemos sobre a suppressão dos districtos, agora sobre outros pontos da reforma vamos tambem expor a nossa opinião. Achamos justissimo que o estado remunere condignamente o empregado mas somos contra a reforma do mesmo no fim de um certo numero de annos de serviço porque sempre considerámos as reformas ou aposentações, além de um onus para o paiz, um prêmio á imprudencia. O empregado publico como outro qualquer homem não deve tratar só do presente, deve olhar tambem para o futuro e preparar as cousas de modo que elle lhe seja senão brilhantissimo pelo menos supportavel. Para isso basta-lhe, por exemplo, levar aos monte-pios ou ás caixas de seguros de vidas, a pequena somma que durante o anno tiver economisado. Mas, se não fizer isto, se não empregar o seu dinheiro de modo que colha algumas vantagens e se chegado á velhice se encontrar sem pão que soffra as consequencias da sua imprevidencia. O estado é que não deve soccorrel-o porque não é para sustentar perdularios que o proprietário, o industrial, o cerealista, o artista—que são os que contribuem para as urgencias do thesouro—deixam as mais das vezes os filhos sem pão para irem levar ás recebedorias o dinheiro que ganharam á custa do suor do seu rosto e muitas vezes até com risco de sua propria vida.