A INAUGURAÇÃO DA ESTATUA DE D. PEDRO IV
O Porto acaba de ser theatro de uma das mais importantes scenas. A homenagem de respeito á memória de um grande rei, traduzida n’esse monumento que os mais patrióticos e bem succedidos esforços levaram a effeito, teve a consagração de que era digna, pelo povo que tomava a seu cargo desempenhar-se d’esta divida nacional. Tributo de gratidão a quem possuira a dupla realeza do império e do amor de seus súbditos, dois reis se dignaram tomar parte n’elle, engrandecendo o que já era solemne. A inauguração do monumento do senhor D. Pedro IV, que hontem teve logar, ficará sendo uma data gloriosa por todos os esplendores que concorreram a abrilhanta-lo. Não demoraremos aos leitores, que não assistiram a esta magestosa cerimonia, os pormenores d’ella. Será o pallido reflexo de um brilhante quadro, porém suprirá a imaginação dos que nos lerem, a deficiência da descripção, fazendo desapparecer a distancia entre a majestade do espectáculo e a pintura que d’elle fazemos. Eis as primeiras instantaneas que as nossas reminiscencias conservaram d’esta grandiosa scena: O interior da praça de D. Pedro, em que se ergueu o monumento ao monarcha que lhe deu o nome, achava-se em volta vistosamente decorada de mastros, em cujo topo tremulavam galhardetes de variadas cores. Em frente da estatua levantava-se o pavilhão destinado a receber suas magestades. Duas ordens de vasos com flores, dispostos sobre pedestaes quadrangulares, se estendiam desde as grades fronteiras á camara, circuitavam o monumento e rodeavam igualmente o pavilhão. Este compunha-se de um corpo octogono, sustentado por oito columnas, tendo adjuntos dois corpos lateraes, especie de galerias com tres arcos de frente e um de topo, de cada lado. As cupulas que deviam rematar estas construcções não chegaram a ser collocadas, por falta de tempo. Esta falta dava motivo a que o pavilhão perdesse muito do seu effeito. Todavia era excellente o aspecto que offerecia. Na frente do entablamento, para o lado do edificio dos Loyos, achava-se collocado o brasão da cidade, e na frente, voltadas para a praça, as armas portuguezas. Aos lados, em cada angulo do estabelecimento, achavam-se dispostos, entre tropheus, oito escudos com differentes datas relativas aos principaes factos da campanha da liberdade. Eis-aqui essas datas: Entrada no Porto, 9 de julho de 1832.—Ponte Ferreira, 23 de julho de 1832.—Cerco do Porto, 29 de setembro de 1832.—Tomada da esquadra, 5 de julho de 1833.—Linhas do Porto, 25 de julho de 1833.—Cerco de Lisboa, 9 de setembro de 1833.—Torres Novas, 27 de janeiro de 1834.—Asseiceira, 16 de maio de 1834. Pequenos mastros com galhardetes ornavam a parte superior dos dois corpos lateraes. No meio do pavilhão, sobre o estrado, achavam-se duas cadeiras para suas magestades. Cobria a estatua um longo véu listrado das cores nacionaes. Todos os predios em volta da praça estavam festivamente adornados de colchas de damasco, muitos embandeirados. N’este numero contava-se o edificio dos paços do concelho e o dos Loyos, que apresentava um magestoso aspecto. Em todas as janellas se via uma numerosa multidão de senhoras. Aos lados da praça e na embocadura das ruas, que a ella convergem, via-se igualmente um numeroso concurso de povo, que algumas horas antes da cerimonia já se entrecruzava n’aquelle local em tal quantidade, que mutuamente se impedia o transito. No interior da praça tinham tomado logar as senhoras dos subscriptores do monumento e todas as pessoas chamadas a fazer parte da cerimonia da inauguração. Eram estas as auctoridades civis, administrativas, ecclesiasticas e judiciaes, deputações das associações e representantes da imprensa. Alem d’estas, os voluntarios de caçadores n.º 5 e da Rainha, os quaes constituíam a guarda de honra ao monumento, debaixo do commando do sr. barão de Grimancellos, que fôra convidado pela ex.ma camara para este fim por ter sido s. ex.ª o ultimo coronel do regimento dos voluntarios da Rainha que tanto se distinguira nas campanhas da liberdade. A’s duas horas da tarde, previamente formada em volta da praça a tropa da guarnição, assomou n’ella o préstito real. Suas magestades vinham em carro descoberto, acompanhados dos srs. presidente do conselho de ministros e ministro da fazenda. As musicas n’esta occasião tocaram o hymno e a tropa apresentou armas. A’ entrada da praça esperavam suas magestades a ex.ma camara e a commissão auxiliadora do monumento. Suas magestades encaminharam-se para o pavilhão, onde tomaram logar. Ahi o sr. presidente da camara, visconde de Lagoaça, pronunciou um discurso, a que sua magestade el-rei se dignou responder. Em seguida o sr. presidente convidou sua magestade o senhor D. Luiz a desenterrar a estatua do seu augusto avô. Suas magestades desceram do estrado, seguidos da sua comitiva, e depois deram uma volta em roda do monumento a fim de examinarem os baixos relevos. El-rei, tomando o cordão que prendia o véu, tornou patente ás vistas do publico a imagem da immortal duque de Bragança. Esta solemnidade foi saudada com numerosos foguetes, tocando as musicas o hymno da carta. N’esta occasião o sr. visconde de Lagoaça levantou os vivas a suas magestades o senhor D. Luiz e senhora D. Maria Pia, ao principe real, ao senhor D. Fernando, á imperatriz, a toda a familia real, á carta constitucional e á cidade do Porto. As torres annunciaram o fausto acontecimento da inauguração e a bateria da Serra do Pilar e o vapor de guerra Lance salvaram com vinte e um tiros. Suas magestades andaram em seguida em volta do monumento examinando a estatua. Tendo mandado chamar o estatuario, o sr. Clenels, e o sr. Verern, que superintendeu nos trabalhos da fundição, os reaes personagens dirigiram a ambos umas lisonjeiras expressões acerca do seu trabalho. No pavilhão, onde suas magestades voltaram depois de terminada a cerimonia, foram-lhes offerecidos n’uma salva de prata dois exemplares em oiro da medalha commemorativa da inauguração e outros dois ao sr. visconde de Almeida e Manuel Correia de Sá, para d’elles fazerem entrega, o primeiro a sua magestade a imperatriz, a quem n’esta cerimonia representou, e o segundo a sua alteza a infanta D. Izabel Maria, de quem igualmente foi representante na mesma solemnidade. Terminado este acto, os reaes personagens e sua comitiva dirigiram-se para os paços do concelho, onde suas magestades se dignaram apparecer á janella e saudar o povo, sendo n’esta occasião enthusiastícamente victoriosados pelo povo. A tropa desfilou em continencia por diante de suas magestades, tocando as musicas o hymno de el-rei, e dirigindo-se para a Lapa a fim de ali formar. Tendo suas magestades recolhido á sala das sessões e occupado os lugares que lhes estavam reservados, foi pelo secretario da ex.ma camara lida a acta da inauguração, e acabada a leitura foi assignada por suas magestades, pelas pessoas da sua comitiva e muitas outras das quaes se achavam presentes. Em seguida a ex.ma camara acompanhou suas magestades ao logar em que se achava o trem real, e tendo os augustos personagens entrado n’elle, acompanhados dos srs. presidente do conselho de ministros e ministro da fazenda, como tinham vindo, partiram em direcção á Lapa, a fim de assistirem ali ao Te Deum, mandado celebrar pela municipalidade. A’ porta do templo foram suas magestades recebidos debaixo do pallio, e, depois de haverem feito oração, teve logar o Te Deum. Officiou n’este o ex.mo bispo da diocese, e a oração gratulatoria foi recitada pelo sr. Santa Anna, abbade de S. Martinho da Barca. O sr. Santa Anna, derivando o seu discurso das palavras de sua magestade o senhor D. Luiz, quando, em resposta á felicitação do municipio, chamando o Porto povo independente e novo povoamento fundado na sua dedicação inexcedivel, fallou com subida eloquencia da historia liberal de 1820-1834 e da biographia immorredoura de sua magestade imperial o senhor D. Pedro IV, e no fim lembrou a missão do monumento e a sua significação. A’s quatro horas e meia terminou o Te Deum regressando suas magestades e a sua comitiva para o paço. A guarda de honra á porta do templo era feita pelos voluntarios da Rainha e de caçadores n.º 5, uma força de infanteria n.º 3, com a respectiva bandeira. Depois do Te Deum os voluntarios do caçadores n.º 5 e da Rainha vieram pela rua do Almada até aos paços do concelho, onde estes ultimos fizeram entrega da bandeira que antes da cerimonia ali haviam ido buscar. Ambos estes contingentes eram precedidos de musicas. A dos voluntarios da Rainha era a do palacio de crystal; a de caçadores n.º 5 era uma outra batida. Alem das pessoas d’esta cidade que assistiram á cerimonia esteve presente a ella uma commissão dos voluntarios da Rainha residentes em Lisboa, que d’ali veio para este fim. N’esta commissão já demos noticia d’outra occasião. Veiu tambem, como representante do municipio da capital, o vereador o sr. José Joaquim Rodrigues da Camara. Igualmente se fez representar n’esta solemnidade o centro promotor das classes laboriosas pelo seu presidente, o sr. Vieira da Silva. Assistiram tambem, alem de todos os que temos mencionado, uma força do 3.º batalhão de veteranos, e alguns individuos que militaram em differentes corpos sob as ordens do augusto personagem a quem era tributada a homenagem que seu augusto neto solemnemente veiu consagrar, com grande ufania para esta cidade e jubilo para todo o paiz. (Commercio do Porto)