(Carta do sr. conde de Penha Firme)—Vi uma carta no seu jornal, de 6 do corrente, assignada pelo sr. Meyrelles do Canto, cavalheiro que me é inteiramente estranho, contendo algumas accusações contra mim, fundadas em informações obtidas de um anonymo, correspondente de toda a respeitabilidade, e procede d’este modo unicamente pelo desejo que tem de estabelecer «a verdade, e só a verdade historica». O respeitavel anonymo que informou o sr. Meyrelles do Canto, assegura (este cavalheiro dá-lhe inteiro credito) o seguinte, como verdades historicas: 1.º que achando-me eu em «apuros por falta de pagamentos dos meus soldos, e dos da armada», eu quizera partir para Inglaterra, «e segundo até se disse, e foi constante» para vender ali uma parte da esquadra, afim de obter os meios de me pagar, e aos officiaes e tripulação; 2.º que o cavalheiro Valdez, conde de Bomfim, exigira de mim o prazo de 48 horas para obter fundos, a fim de satisfazer ás exigências da esquadra, e evitar um passo tão fatal á dynastia da rainha e á causa constitucional; 3.º que tendo alcançado os necessários fundos do conde de Farrobo etc., satisfizera os meus pedidos, fazendo assim, ao partido dynastico da sr.ª D. Maria II, e á carta constitucional, o mais assignalado serviço; e que só depois, de embolsado satisfactoriamente o almirante, officiaes e guarnição, é que o almirante desempenhou com valor, e todo o interesse, a missão que lhe havia sido confiada. Não haverá difficuldade em testemunhar mais satisfactoriamente a «verdade, e só a verdade» d’estes factos historicos. O bill sobre alistamento de estrangeiros em Inglaterra, considera crime, e sujeito a prisão e multa, qualquer subdito britannico que entra no serviço militar, contra alguma potência que está em relações de amisade com o soberano britannico. Segundo as condições d’aquelle acto, procedeu-se de informações a meu respeito, por parte dos agentes miguelistas em Londres, quando eu me empregava em arranjar a nossa pequena esquadra, com o fundamento de que eram navios de emigrados comprados por mr. Aidonin, subdito francez. Fui por consequência obrigado a esconder-me por alguns dias, e consegui fazel-o, evadindo-me de noite em um navio destinado a Bolonha, emquanto que os nossos demais navios, não foram tão felizes, por isso que apprehendidos pela alfandega, em virtude do mesmo bill de alistamento de estrangeiros, e só depois das maiores diligencias de lord Palmerston, que era extremoso amigo da nossa causa, é que elles foram finalmente desembaraçados; mas com a maior recommendaçâo de fazer com que elles largassem immediatamente das costas inglezas, para se evitar um encontro, que podia ser fatal. É pois possível, com tão evidentes provas, tanto no que me diz respeito, como aos nossos navios, por havermos contrariado todos os artigos d’aquelle bill, que eu fosse tão néscio ou falto de bom senso, que navegasse para Inglaterra, para ser ali preso e os navios tomados pelas auctoridades da alfandega, e entregues aos seus legitimos donos? Qual seria o paiz civilisado que permittisse a venda de varios navios de guerra, feita por homens revoltosos nos seus portos? A accusação que eu julgo ter sido feita d’este modo, traz comsigo as provas da sua falsidade. Em resposta ao paragrapho segundo, de que o general Valdez exigiu de mim 48 horas antes que eu executasse a fatal resolução de levar a esquadra para vender os navios, a fim de nos pagarmos do dinheiro que se nos devia, é uma falsidade inexplicavel, sem a menor base em que se possa firmar; independentemente da minha negativa, o que eu disse em resposta ao paragrapho primeiro e o que eu agora tenho accrescentado, provarão sufficientemente a verdade da minha asserção. Em primeiro logar não creio, que o conde de Farrobo estivesse no Porto, na epocha a que se allude; e não podendo consequentemente o dinheiro obter-se em duas ou tres semanas, era portanto impossível fazer-se o pagamento nas 48 horas pedidas. O serviço verdadeiramente importante, feito pelo conde de Farrobo á boa causa, foi um negocio muito posterior á chegada do duque de Saldanha. Em resposta ao que se contem no paragrapho terceiro, é falsidade que nelle se attribue pôde ser abundantemente provada por muitas testemunhas vivas e recordações officiaes etc. Foi alguns mezes depois da visita do duque de Saldanha ao meu navio, que a tripulação da esquadra foi paga (em abril ou maio de 1833); os officiaes em parte, e eu, empregámos todas as nossas forças, pedindo e obrigando (pela minha parte tinha todo o poder de o fazer) que se auxiliasse a causa que eu estava empenhado em defender. Tinha eu então um atrazo de mais de doze mezes de pagamento do soldo da minha patente britannica (que é a minha unica fortuna), e o quinhão de almirante no valor em dinheiro proveniente das numerosas presas, cujo producto tinha sido despendido no serviço publico; perfazendo a totalidade de umas 15:000 libras; e isto sómente foi pago muito tempo depois da chegada da rainha a Lisboa. Pela minha parte, reconheci a importancia vital da expedição próxima a fazer-se ao Algarve sub o commando do duque da Terceira, e do extremo valor dos fundos, ainda que pequenos, em vista de tão apuradas necessidades do governo. Fiz pois o sacrificio de dar tudo para a causa, por que tinha combatido e pela qual continuava a tomar o mais profundo interesse. A causa que eu tinha emprehendido servir era olhada, pela grande maioria dos meus compatriotas, e em França, com profundo interesse e favor. Estava ella de accordo com todos os sentimentos do meu coração, como os meus principios politicos; por isso me determinei a expor a minha vida e fortuna para a sustentar. As infelizes divisões entre os partidos constitucionaes tornaram, mais difficil o que eu tinha a praticar, e por mais de duas ou tres vezes nos levaram ao perigo da destruição. Em conclusão, atrevo-me a dizer que se os serviços de cada portuguez prestados á boa causa fossem pesados, os meus, posto que de um estrangeiro, não seriam de menos valor. Sou etc. Sartorio, conde de Penha firme.
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