Rectificação
Em virtude da noticia que demos no N.º 6 deste jornal, foi-nos enviado de Odemira por pessoa fidedigna o seguinte: Na noite de 27 de abril ultimo appareceram no monte denominado Faf de Thomé da freguezia de Reliquias d’este concelho dois algarvios, montados em bellos machos, um dos quaes perguntava carneiros para comprar, e o outro pedia gazalho aquella noute por se achar doente; o lavrador bom e honrado homem, de bom grado deu lugar ao doente junto ao seu lar, e mandou por sua mulher preparar um cosimento para o enfermo, bem como por um creado acomodar os dois machos dos dois algarvios; não acceitaram elles este ultimo favor, pretestando ficarem melhor fóra da cavallariça. Pouco tempo depois, quando o doente fingido já se achava assentado ao pé do lavrador, começou o companheiro a sair á rua frequentes vezes, fingindo ir ver os machos, até que dentro em pouco tempo entrou acompanhado de muitos homens armados de espingardas, e apoderou-se de todas as pessoas da casa, que amarraram, cobrindo-as todas com um cobertor, tendo n’aquella occasião o lavrador sido agarrado e seguro pelo tal doente. Sem perda de tempo foi tudo revistado, e enfeixado o que lhes fez conta, sairam deixando a gente do monte toda bem presa com cordas, elevando muitas arrobas de carne, roupas, armas, e algum dinheiro, não offendendo com pancadas senão um creado, que tentou resistir. O valor do roubo não excedeu a trezentos mil réis pouco mais ou menos. Deu parte na administração o lavrador roubado logo no dia seguinte, e no immediato foram presos dois dos ladrões em cujo poder se achou ainda boa parte do roubo, e logo em seguida uma parte considerável do mesmo foi achado no sitio onde os ladrões fizeram a divisão, e que não poderam levar pela precipitação da fuga. Sabe-se que esta quadrilha se reuniu em S. Marcos da Serra, que era composta de gente do Algarve, o que ali delinearam não só o roubo de Vai de Thomé, mas outros n’este concelho, que não praticaram, e que pelo máu successo do primeiro é de supôr a tanto se não arrisquem. Tem-se fallado muito n’um vagabundo que denominam chapeo de ferro, e que dizem andára pelas freguezias do Cercal e Collos na charneca da ribeira de campilhas, mas até hoje não consta que roubara por aqui alguém, e apezar das maiores deligencias, nem se tem podido colher, nem se dá noticia d’elle. Fallou-se n’uns homens armados que pela freguezia de S. Theotonio andaram procurando vários montes abastados, fizeram-se bens concertadas deligencias para os prender, mas nunca se soube d’elles, nem consta que roubassem alguém.