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Lisboa · Madrid · Espanha · Portugal Correspondência · Exterior / internacional · Governo Civil

D’uma correspondência de Madrid, que publicou o Diário de Lisboa, extrahimos o seguinte: «A Gazeta e todos os jornaes de Madrid publicam hoje uma ordem do capitão general, communicada ao governador civil, nos seguintes termos: Tendo chegado ao meu conhecimento que alguns sujeitos inimigos da ordem publica e da sua segurança privada, concorreram e assignaram um protesto contra os actos do governo, ha mais de dous mezes publicados e recebidos pelo paiz com as demonstrações de espontaneo assentimento e da liberalidade que todos acabamos de vêr, e de não se terem reunido as côrtes no presente anno, interpretando falsa e malignamente os preceitos constitucionaes; estando firmemente persuadido de que os deputados da nação, achando-se legalmente privados do exercicio de seus papeis políticos, e a capital em estado de sitio, não tomam parte n’esse que deploro, e tenho o imperioso dever de castigar duramente; mas seguro tambem de que o protesto de que se trata esteve exposto para que se designasse clandestinamente no congresso dos deputados, tratando-se d’este modo ás leis no sanctuario em que se fazem, decidi que não se repita tal escandalo e que tracte a auctoridade civil de que se cumpram com a maior pontualidade as ordens e disposições que na sua presença ditei, no mencionado edifício, prohibindo a entrada e sahida nelle a todas as pessoas que não sejam os conservadores e os dezeseis empregados que teem ali o seu domicilio e estão encarregados da sua guarda e limpeza. Seguem a esta despótica e ridícula ordem outras amarguíssimas communicações officiaes, próprias do sr. conde de Cheste e do sr. Gonzalez Bravo, que são hoje entre nós os únicos e mais impassíveis defensores do abuso e da reacção. Agora vêr-se-ha de que modo prudentíssimo e significativo termina a mencionada ordem; que explica o estado do ministério, e comprova as nossas considerações: “Se v. ex.ª tiver noticia de que a indicada reunião se celebra no domicilio de algum militar, avise-me opportunamente para que eu possa proceder contra elle que o farei desde logo, por mais brilhante que seja a sua categoria, e por mais estimavel que seja a sua pessoa.” Todos os jornaes receberam tambem instruções para que não omittam nem demorem, se preciso for, a circulação do jornal. Por isto póde formar-se idéa exacta do estado d’este governo. Mas que ganhará o paiz com a substituição prevista de O’Donnell e da sua camarilha? (...) Tornaram-se precauções militares e o publico de Madrid assiste com visivel agitação a estes dramas de grande espectáculo político, nos quaes se disputa só e unicamente a posse do poder, e não a salvação da patria nem a iniciação de princípios regeneradores. Depois do que deixamos consignado nada mais conseguimos saber, ficando com avidez na expectativa por tudo e para tudo. Terminamos por hoje a nossa revista sem registarmos noticias geraes, tanto porque carecem de interesse, como porque os successos indicados absorvem a attenção geral, e merecem toda a preferencia. Veremos amanhã o que posso communicar, que de certo deve ser alguma cousa importante, a julgar pelo movimento de generaes e ajudantes que se observa nas ruas de Madrid. A’ ultima hora. Foram hoje metidos na cadeia mais de 100 deputados do partido unionista, incluindo o presidente da camara popular, o sr. Rios Rozas, em consequencia do capitão general de Madrid, o sr. Pezuela, tel-os surprehendido em uma reunião onde se havia redigido um protesto á rainha assignado por todos os membros principaes do partido unionista. Afirma-se que esta noute sahirão para Cadiz, e para Cartagena o sr. Rios Rozas e demais presos, que o governo manda pôr á disposição dos respectivos capitães generaes. Corre n’esta côrte o boato de que no momento de se apresentar na reunião de unionistas o capitão general, sr. Pezuela, para os prender foi expulso d’alli, e de mau modo, pelos mesmos unionistas. Rios Rozas, Dronism, Roberg, Posada Herrera, Fernandes de la Hoz, Saavedra, e um official da secretaria do congresso acham-se nas prisões militares. Rios Rozas não quiz abrir a porta da sua casa quando foi a policia prendel-o. Desde a meia noute do dia 29 permaneceu cercada a sua morada, e ás quatro horas da manhã arrombaram a porta para o conduzirem á cadeia antes que amanhecesse, para que o publico não presenceasse o facto. Que elle o presenceasse era o que desejava conseguir o preso. Continuam-se fazendo muitas prisões de deputados, e calcula-se que passam já de oitenta as pessoas arrancadas do seio das suas famílias. Todas essas pessoas occupam boa posição na sociedade, e a maior parte são deputados e ex-ministros da corôa. Este ministerio immortalisa-se. É possível que succeda alguma cousa importante, mas posso affirmar que se se trava a lucta entre unionistas e moderados, o povo sahirá para as ruas e lhes imporá a lei, isto é, será o seu triumpho.»