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Artigo

O anno velho e o anno novo

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Roma · Alemanha · América · Áustria · Brasil · Espanha · Europa · França · Grécia · Itália · Polónia · Portugal · Prússia · Reino Unido · Rússia Exterior / internacional · Interpretacção incerta

Despedimo-nos do anno de 1866, que para Portugal, se não foi um anno de venturas, tambem não foi de calamidades. D’uma calamidade escapamos, que affligiu quasi toda a Europa. A epidemia da cholera-morbus ainda n’este anno nos poupou, e disto devemos dar infinitas graças a Deus. O anno foi abundante de fructos da terra; e os lavradores, em geral, viram abençoados os seus suores e os seus capitaes. De longe sentímos ainda alguns resultados da guerra que assolou a Allemanha, porque não podíamos escapar ao abalo geral que esse desastroso successo produziu na Europa. O anno de 1866 lega ao de 1867 uma serie de questões importantes, e cujos resultados ou desenlace não é dado a ninguem prever. Ás consequências da guerra emprehendida pela Prússia contra a Áustria, apresentam uma face ainda complicada. Um povo resiste á annexação imposta pela Prússia victoriosa. O Hanover quer a sua autonomia, e a Prússia quer forçar esta nação a perdê-la. E o Hanover lucta como pode para protestar contra tamanha violência. A Italia recuperou, em resultado da sua alliança com a Prússia e dos seus proprios esforços, os estados que ainda eram avassalados pela Áustria. O estrangeiro já não domina na Italia. Este povo, com o maior bom senso, com o mais singular patriotismo, está mostrando ao mundo que era e é digno de ser uma nação livre e independente. Roma lá está ainda envolta nas trevas de um futuro incerto. A civilisação e o progresso ainda não puderam vencer o fatal Non possumus do papado. O throno temporal do rei de Roma, assente nas velhas instituições da edade media, intenta negar a força invencível, que mau grado seu o tem já abalado. A Rússia opprime e devasta ainda a Polonia. A Turquia pretende comprimir o grito da nacionalidade hellenica que se levanta em Candia. As nacionalidades ainda opprimidas, aqui a Polonia, além a Irlanda, acolá a Grécia, querem reconquistar os seus fóros; mas a força subjuga-as. Para 1867 vae a brota. Qual será o resultado d’ella? A Rússia, sempre com os olhos em Constantinopla, favorece a revolta dos hellenicos, e a política vê a possibilidade de em 1867 surgir novamente a questão do Oriente. Já se falla em uma alliança da França, Inglaterra, Italia e Prússia, para contrariar os planos da Rússia. O autocrata quer ter a sede de seu império política e religiosa na velha cidade de Constantinopla; quer ser o pontifice do Oriente, tendo o seu throno na capital do antigo império do Oriente. Tem sido este, ha muitos annos, o sonho dourado dos cesares da Rússia. A Europa tarde consentirá que o sonho venha a ser uma realidade. Triste é a sorte dos gregos ainda escravisados pelos turcos; mas a dos polacos avexados pelos russos será menos triste? Tanto direito tem o sultão dos turcos para possuir uma parte da Grécia, como o imperador da Rússia para avassalar a Polonia. A pobre Hespanha entra no anno novo bem attribulada, e tendo ante si um futuro pavoroso. Quem póde dizer qual será o caminho da revolução que nesse povo está imminente? Quem póde prever até onde irá o desforço d’uma nação tão opprimida, no dia em que se resolver a ser livre? O futuro de Hespanha é medonho. Na America o Brazil debate-se em uma guerra já prolongada em demazia, que o não deixa cuidar do seu progresso e da sua civilisação. O anno de 1867 apresenta-se-nos promettedor de gravíssimos successos. Mas seja qual for a sorte dos impérios, em virtude das questões pendentes, a causa da liberdade dos povos, a causa da civilisação dará mais um passo. Basta a discussão; basta a imprensa para não consentirem que o mundo retrograde. E ainda quando apparentemente a reacção pareça ganhar terreno, a revolução dará depois um passo mais agigantado para diante. Com o livre exame, com o conhecimento que os povos vão adquirindo dos seus direitos, a liberdade vae segurando as suas victorias, e os sedentos do passado vão sumindo-se, como sombras vãs, como espectros, que a maravilhosa luz da liberdade e da civilisação fará desapparecer para sempre. Para 1867 peçamos a Deus que nos conserve a liberdade de que goza Portugal; mas que inspire a sabedoria e a prudência aos seus governos, para que elles pensem seriamente na reforma da administração publica, e em dar leis á força de que precisam para que sejam efficazes. Não carecemos de mais liberdade, carecemos só de mais juizo nos governos. Deus abençoe o novo anno, afim de que Portugal avance na estrada do progresso e da civilisação, conservando esta ditosa paz que desfructa ha quinze annos. Deverá ter sido mal proficua, é certo; mas em fim temos andado para diante, e é isto que importa sobretudo. J. do C.