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Festa do Sacramento

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Lisboa · Portugal Governo Civil · Igreja

A capella da irmandade da freguezia de S. Thiago se celebrou este anno com a costumada pompa a solemne festividade do SS. Sacramento. Nos tres dias de festa houve missa com musica vocal e instrumental e na tarde de sabado vésperas. A orchestra era composta da philarmonica bejense e de alguns musicos do regimento 17 d’infanteria. As vozes as melhores da capital. A porta do templo tocava a banda regimental do 17 ao começar e terminar a festa em cada um dos tres dias. As authoridades ecclesiastica, civil, militares e judiciarias assistiram á festividade nos seus competentes lugares. As irmandades estavam, como de costume, nas suas respectivas bancadas. Centenares de pessoas de todas as egrejas enchiam o vasto templo. Pregaram os reverendos padres M. H. de Menezes Feio, d’esta cidade, Conceição Borges e Teixeira, de Lisboa. O primeiro orou na sexta feira pela manhã. Não ouvimos o seu discurso, mas consta-nos que foi bom. Na sexta feira de tarde e sabado pela manhã occupou a tribuna evangelica o segundo, e forçoso é dizel-o, não correspondeu ao que se esperava. Dividiu o sr. Conceição Borges o seu discurso em duas partes, a ultima foi uma vulgaridade, a primeira uma serie de absurdos desde a proposição «o progresso e a civilisação não dependem da illustração mas sim da eucharistia» até aos «dois bocados de ouro extrahidos da mesma mina, tendo ambos a mesma dureza, maleabilidade e peso sendo um bom e outro falso» o que fez rir a bandeiras despregadas uns estudantes de introducção. Isto é o panico da amostra porque todo o discurso abundou em sub-imidades d’esta ordem. Foi pena que o sr. Conceição se metesse a fallar em sciencias naturaes, de que não sabe cousa alguma porque s. s.ª tem um linguajar correcto e a exposição é bella. O sr. Teixeira orou na tarde de sabado e na manhã de domingo. Agradaram muito as suas orações e pena foi que na primeira viesse com os talos de alface com a vaca de Tertulliano, com os pintasilgos e outras coisinhas que nos fizeram lembrar aquelle celebre sermão do nosso conterraneo Bonifacio, na festividade da exaltação da Santa Cruz. No domingo, depois de missa foi conduzido processionalmente o jantar aos presos. Rompia o prestito a cruz da irmandade e seguiam-se 180 alcofas com carne, pão, arroz etc. etc. As dignidades das quatro irmandades do SS. Sacramento, os ex.mos srs. governador civil, deputado Frederico de Mello, conselheiro Bispo, juiz de direito e delegado do procurador regio, levando as insignias, fechavam o prestito. Pelas seis horas sahio a procissão. Levava os dois riquissimos andores de prata da communidade da Conceição e mais os do Senhor Resuscitado e Nossa Senhora dos Prazeres. Cada um dos andores era precedido de um anjo. Após os andores seguiam-se os padres revestidos de pluviaes, e o pallio sob o qual conduzia a Custodia o reverendo prior de S. Thiago. No prestito iam mais de 100 irmãos e fechava-o uma guarda do regimento 17 com a sua excellente banda. Depois de recolher a procissão e de conduzidos para o convento os andores, foi a irmandade de S. Thiago dar a posse á de Santa Maria a quem compete para o anno a festividade. No acto da posse queimaram-se cento e cinco dúzias de foguetes e houve um bonito fogo de artificio. Na segunda feira foi á cadeia a irmandade distribuir aos presos uma avultada esmola.