Voltar ao arquivo
Artigo

Um criado esperto

Cultura e espectáculoMeteorologia e fenómenos naturaisSaúde e higiene públicaSociedade e vida quotidianaCostumes e hábitosLivros e publicaçõesMédicos e cirurgiõesPobres e esmolas
Interpretacção incerta

O sr. D. Juan, hespanhol legitimo, e residente na terra da sua naturalidade, que no se le conoce, tinha um criado que despediu ha tempos, e logo se lhe apresentou outro: diz o Jornal do Norte.—Rapaz: sou amigo de fallar pouco, e quero que me entendam por meia palavra, e quasi que adivinhem os meus pensamentos. Assim, quando te disser: «Vou fazer a barba,—deves entender que quero agua, sabão, navalha prompta, barbeiro, e tudo o que é preciso para uma pessoa se barbear. E o que digo com respeito a esta operação, quero que se cumpra a respeito de todas as outras.» Assim executava o criado, e D. Juan estava muito satisfeito com elle. Sentiu-se um d’estes dias o amo um pouco indisposto, e disse ao criado que lhe fosse chamar um medico. Não obstante o doutor morar perto, o criado demorou-se, e só appareceu d’ahi a tres horas dizendo: —Já ahi está tudo. —Como, tudo? perguntou D. Juan. Porque não vieste ha mais tempo? —O sr. disse-me que lhe adivinhasse os pensamentos; assim, fui chamar o medico, o viatico, um escrivão, os amortalhadores, mandei vir o caixão e o habito, e ficaram a pôr os cavallos a um rico carro de armação; agora diga-me se quer que vão os pobres de S. Bernardino, ou unicamente os amigos do finado? D. Juan amarrou as mãos na cabeça, saltou para fóra do leito, e com tal impeto, que o criado fugiu pela porta fóra..., e até hoje!