Portimão
Em data de 14 do corrente diz-nos o nosso correspondente. A rico não devas, e a pobre não promettas. É bem certo este adagio ou rifão, que já na nossa puerilidade ouviamos repetir á nossa santa avosinha. A rico não devemos felizmente, nem tão pouco a pobres promettemos, mas como as declarações por nos feitas uma vez levam sempre o cunho da verdade, vamos pol-as em pratica se o digno redactor do Bejense nos acolher tão benignamente, como ate aqui. Queremos, sr. redactor com a sua devida venia dizer alguma cousa do incremento das obras do nosso caes e porto, que não é tão insignificante, como alguem julga, e que serve só para exportar figo, amendoa, alfarroba, cortiça etc. etc. etc. É um dos melhores de toda a costa do Algarve, e alem de ter sido honrado por monarchas estrangeiros, como o rei de Fez Mulei Xeque que entrou e desembarcou n’este porto em 1609, já se acha cantado em verso pelo tão insigne como mimoso porta João de Deus, que ha tempos se tem dignado viverem nosco, no que temos muito prazer, porque é um signal de que a nossa villa e porto agrada aos poetas. Até aqui escreviamos mais aflitos, porem agora que vemo-nos entrar no nosso assumpto um verdadeiro filho de Minerva, um legitimo filho de Apollo e finalmente um poeta, mas um poeta original pela naturalidade com que escreve, pela vmdancia dos conceitos, pela sublimidade das imagens, e traços expressivos, que apresenta nos desenhos do seu sentir e pensar, vacila-nos a nossa penna, e esquecem-nos os termos para em humilde e rasteira prosa cumprirmos a nossa declaração. La foi outra pitadita de latim, e supra qualquer falla motivada pela nossa pequenez intellectual e boa vontade. Bem sabem os leitores que não podemos competir com um individuo, que habita o Parnasso na companhia d’Apollo e das musas. A variedade tambem deleita em certos casos, e muito embora eu tal effeito não produza, com tudo dou de baumento o que tenho, e tanto que vou principiar. Ha já não sei que annos, que se começou a obra do caes, onde se tem enterrado um bom numero de contos de reis e está quasi que fica em principio. Lá nos assomou á idea outra pitadita do retrogado latin na opinião dos sabiositos feitos á pressa, que só para elles é bonito o saber paroler qualquer chôse. Esses litteratos de pé fresco, que dizem mal de tudo e por tudo, e que dizem até mal da sua lingua, recommendando-a mais, que os pedintes a sua propria capa, dão-lhe o valor, esquecidos de que dão em si mesmos, revelando assim a sua ignorancia. Ha 3 lustros que começamos a admirar as bellezas dessa lingua, que mesmo depois de morta foi reputada pelas nações da Europa a lingua da religião, e das sciencias, e como lhe temos ainda muita amizade, de vez em quando os nossos escriptos denunciam a nossa tendencia como acontecia ao nosso professor que foi frade, e que lamentava e bom lamentar a extincção das ordens monasticas, que se acham actualmente todas encerradas no ministerio de obras publicas. Essas ordens fradescas, com diversos titulos, como Crusios, Bernardos, Carmelitas, Antoninos, Franciscanos etc. etc. mudaram apenas de nome. Acham-se hoje sujeitas a uma só cabeça, o ministerio d’obras publicas, e são florestaes, canalizadoras, monumentarias, geodesicas, hydraulicas, correios (principaes morgados do Alemtejo) agricolas, vinicolas, pecuarias et tuti quanti, com mais ou menos garantias. As ordens nobres e ricas d’outrora são representadas na actualidade pelo conselho d’obras publicas, onde por summo capitsa se veem os trabalhos já feitos, e onde com um compasso se modifica um traçado para a estrada passar pela porta do influente politico. Os Bernardos são os directores, e pessoal technico, que tiveram uma reverendissima Chrisostomisna reforma, em quanto que outros como escrivães pagadores, amanuenses, e mesmo conductores, trabalham a bom trabalhar, e recebem um ordenado mesquinho. Os Franciscanos e Antoninos, que á custa de pequenas esmolas viviam vida regalada, ou por outra, vida de mangãos, passaram para apontadores. Recebem pouco é verdade, porém sendo por todo o paiz ás duzias, como acontece aqui para vigiarem á 4 e operarios que trabalham na obra do caes, e a estrada de Lagos, não teem rasão de queixa. Ha dias com certeza vimos uns poucos d’elles no caes: eram tantos como os operarios que trabalhavam ali debaixo da direcção dos nossos amigos dr. Menezes, e Valladas digno chefe d’obras hydraulicas, que são neste porto e caes outra especie de morgados para aquelles senhores. Esta obra póde-se chamar alem d’um morgado pertence aquelles dignos engenheiros, uma mina, mas uma mina cuja exploração está em começo. Não andam para ahi 4 homens a bolir no lôdo, e 2 rapazes da parte terraplanada a deitar areia preta e branca! Á vista pois do pequeno numero de trabalhadores empregados nesta obra, e no numeroso pessoal para os dirigir, temos ches até ao dia de juizo. sicut erat in principio, e não podemos deixar de taxar justas as queixas da despeza, que quasi infructiferamente se está fazendo. A receita é boa e o resultado não se ve. Os navios estrangeiros que entraram no mez passado foram 43, e nacionaes 15. O valor da exportação subiu a cento e sessenta e tantos contos e daqui sahre uma grande verba que bem aplicada devia apresentar outros resultados, porem infelizmente tudo caminha assim e até sem sabermos as quantas andamos, nem em que contas estamos. Aproveite pois quem poder, que eu por hoje já mando descer o pano e tocar a musica até o 2.º acto.