Festividade
No domingo festejou-se na matriz com missa cantada, pela manhã, e á tarde com ladainha e sermão a imagem de Nossa Senhora do Rosario. Elegantemente adornada, estava ella no cruzeiro, em um andor. As devotas foram beijar-lhe o rosario. Não desappareceram ainda de todo as superstições ridiculas que os frades de S. Domingos incutiram no animo dos povos. Segundo elles diziam o rosario e o escapulario eram dons feitos aos homens pela Mãe de Deus, e todos os privilegios, indulgencias e propriedades que os frades tinham ligado ao escapulario e rosario os faziam olhar como os maiores beneficios espalhados sobre a humanidade. Não haviam paixões que senão podessem combater prazeres prohibidos que senão podessem gozar, faltas graves que senão podessem commetter, se ao mesmo tempo houvesse o cuidado de recorrer no rozario para obter o perdão. Com o escapulario se estava a coberto das vinganças do demonio; com o rozario se desarmava a ira de Deus. Eram dois preciosos talismans! As mulheres tinham o rosario como inseparavel do leque; os homens não sahiam sem o levar ao pescoço. Pelo rosario era invocada a virgem para os bons resultados desta ou daquella entrevista, para que o jogo d’esses rios de dinheiro, para que esta ou aquella falsidade não se reconhecesse e finalmente para tudo quanto houvesse de contrario ao determinado no codigo da egreja christã! Até nos theatros se fazia uso do rosario! Quando se queria prender Silanaz lançavam-lhe um rosario aos punhos e ao pescoço, e o demonio dava armas de metter medo! E assim o divino se associava ao profano e se introduziam nos povos superstições as mais ridiculas.