Cubiça e orgulho dos frades
A inquisição tinha por tal maneira infundido o terror em o espirito do povo este tornara-se escravo das vontades dos frades, que com o mais leve pretexto, se introduziam nas casas e n’ellas mandavam como senhores. Se os frades eram encontrados na rua, o povo descobria-se para os saudar profundamente, beijando-lhes a mão e muitas vezes a ponta do habito. Quando qualquer pessoa se achava doente, embora a doença fosse uma simples indisposição, vinham logo dois frades sentar-se á cabeceira do enfermo, atormentando-o com exhortações, exames de consciencia e preparações para a morte. Não poucas vezes os frades com as suas pregações intempestivas aggravavam a molestia do enfermo e a tornavam mortal! Entretanto regalavam-se á custa do dono da casa, tendo sempre os creados e os familiares ás suas ordens. Se alguma vez estes consoladores officiosos se retiravam sem ter conseguido do moribundo um testamento prejudicial á familia, levavam comsigo parte da herança, de que se apossavam em beneficio da ordem! Que santidade! A cubiça ajuntavam o orgulho, que se manifestava sobre tudo quando conduziam o viatico ao enfermo em [ilegível]. [ilegível] subia ao vehiculo, e só tocava a pé. Tochas, povo petulente e instrumentos musicos formavam o acompanhamento, e o padre ia muito bem recostado no trem de que se havia apossado! Frade, tochas, povo, musicos, tudo entrava na camara do moribundo accelerando muitas vezes a sua ultima hora com o calor e a bulha! E se o enfermo morria era então amortalhado com o habito do frade; em o qual não podia ser enterrado, e estes habitos vendiam-se nos conventos a pezo de oiro, e era forçoso compral-os! Que tempos aquelles!