Voltar ao arquivo
Artigo
Economia e comércioExércitoMeteorologia e fenómenos naturaisPolítica e administracção do EstadoSociedade e vida quotidianaAgriculturaConflitos locaisCostumes e hábitosDebates políticosEleições
Algarve · Lagos · Silves · Tavira · Brasil · Portugal Correspondência · Exterior / internacional · Interpretacção incerta

Algarve, 19 de maio (do nosso correspondente)—O prometido é devido. Demorei-me para lhe poder dizer alguma coisa de Silves. As alterações feitas na lei eleitoral, e apresentadas a ultima hora, fizeram também por cá sentir os seus effeitos que, por incompetente, não diremos se bons se máos. Este ardil torpe, a que o governo não teve duvida em recuirer, dá a medida da confiança, que lhe merece a popularidade que se arroga. Sem embargo das circumstancias de momento destruírem elementos poderosos, frustrarem calculos bem combinados, e invalidarem grande somma de trabalhos, a oposição aqui entendeu não abandonar a urna, preferindo ficar vencida na luta, a fugir do campo sem combate. Louvamos-lhe o proceder, porque, ainda quando não colhesse este resultado, que lhe será satisfatório, e tivesse soffrido uma derrota como a do circulo de Lagos, ainda assim mostrava desejos de não deixar correr as cousas a sabor dos homens da governação. D’esta maneira não poderá ao menos o governo blasonar-se de possuir no Algarve toda a popularidade, nem os algarvios poderão em tempo algum tornar responsáveis pelos males, que porventura venham ao paiz dos actos deste governo, os homens que hoje lhe são adversos. Achamos isto bem mais leal, do que o que n’outras partes fizeram abandonando a urna, como protesto solemne contra o que entendiam abuso de authoridade do governo, e que, cremos, deixava de ser se podessem organizar os seus trabalhos de forma que fosse certa a victoria. Mas não vem para aqui o discutir esta questão, nem os mingoados recursos, de que dispomos, comportam tarefa, que nos é tão superior. Estranho completamente á politica, o que bem accusarão os erros em que a cada passo cahimos, e isento portanto de influencias de parcialidades, commettemos os factos taes como se dão, e segundo o que se nos afigura razoavel, sem curarmos de agradar ou desagradar estes ou aquelles. Lutando com a incerteza, baseando-se em suposições mais ou menos realizáveis, a opposição não tinha bases seguras sobre que assentar as suas fortificações; alentada, porem, por nobre coragem, não afrouxou no seu lidar, nem ainda quando vio por terra os planos, de que esperava os resultados mais favoraveis. Emquanto n’este campo se levantavam tropeços e difficuldades e soffriam revezes; no contrario havia a facil organisação dos trabalhos pela ramificação dos agentes perfeitamente instruidos sobre a direcção, que lhes deviam dar; parece, comtudo, que o governo achou embaraços em indigitar nomes, que fossem sympathicos ou pelo menos conhecidos na provincia, o que não podia deixar de influir em seu prejuizo. Encontrou-os finalmente, e, a nosso ver, com excepção do sr. Alves d’Araujo, nome nunca ouvido d’aqui e só recommendavel por algumas dezenas de contos que trouxe do Brazil, os competentes senão os unicos para guerrear os candidatos da opposição. É innegavel a preponderância do sr. barão de Zêzere em Tavira, por onde já tem tido eleito deputado; e temos ouvido a gente conhecedora, e de todas as côres politicas, que, se s. ex.ª tem vindo a Tavira, a victoria lhe era certa, o que não discorda da pequena maioria, que o seu adversario alcançou. O sr. Cortez tambem pelo logar, que desempenhou na ultima legislatura, deixou muita gente agradada. Pouco acostumados a verem nas camaras representantes, que fizessem certo o dito de serem os algarvios muito falladores, não podiam negar a s. ex.ª toda a gratidão. Por Lagos, depois de repellidos alguns nomes, foi indigitado o do sr. Vallada, cavalheiro que goza aqui merecida consideração, e que reune as qualidades precisas para bem representar o circulo por onde foi eleito. S. ex.ª não desconhece as necessidades mais instantes da provincia, e certamente forcejará por corresponder á confiança dos seus constituintes, alguns dos quaes não duvidaram proval-a calcando as suas opiniões politicas, e desatendendo as prescripções do partido a que se acham ligados. Na segunda eleição, que houve em Silves, redobrou o governo esforços empenhando-se pela candidatura do sr. Alves d’Araujo; alcançou a coadjuvação d’uma familia d’ali, que tem incontestavel influencia, mas apezar d’isso, do dinheiro espalhado, dos largos promettimentos e da sympathia, que liga o clero a s. ex.ª, não logrou o seu intento. O sr. Sebastião Coelho obteve uma maioria de 285 votos. Isto, porem, não vale uma derrota, nem o sr. Alves d’Araujo deve desanimar com tão pouco. Aurum vicit omnia; ora quem possue muito dinheiro, e se acha nas boas graças do alto e baixo clero póde ir longe, e se uns, como os de Silves, entendem que o seu representante digno não póde ser aquelle, cuja capacidade lhe vem d’uma borra, outros haverá que pensem de forma differente. Ha mais circulos no paiz, ainda hão de haver mais eleições, não perca pois s. ex.ª as esperanças porque ainda tem muito por onde se estenda. Talvez os eleitores de Silves desattendessem as qualidades, com que a fama recommendava s. ex.ª, pela retirada de Lagos. Pareceu-lhes traste em segunda mão, e não gostaram de tratar negocios com ferros-velhos. Para sermos imparciaes diremos que a opposição empregou também ali o dinheiro, e tudo que pôde angariar votos. De parte a parte não esqueceram as gentilezas do costume. Não incorrerá em erro mui grave quem affirmar, que o governo não venceria a eleição no Algarve, ou antes não faria vingar uma só candidatura, senão fora a reconhecida influencia do chefe do districto, e mais ainda a maneira porque a opposição distribuio os seus trabalhos. Parece ter sido inconveniente a idéa de apresentar 2 candidatos pelos 4 circulos da provincia. Quem muito abraça pouca aperta, este dito antigo, cuja verdade a experiencia todos os dias confirma, não devia ser desposado nesta occasião. Obrando assim, afigura-se-nos seria mais facil obter maioria, por não se acharem as attenções tão divididas. E ainda por não dar logar a um outro motivo, que, segundo nos informam, muito concorreu, especialmente em Lagos, para o triumpho do governo. Foi este o de attribuirem a candidatura do sr. Sebastião Coelho, e Lobo d’Avila pelos circulos do districto a considerações de conveniencias puramente pessoaes, o que fez arrefecer o enthusiasmo d’uns e desviar outros das fileiras da opposição para as do ministerio, dando uma differença mui sensivel. O desejo de guerrear o governo ajuntou elementos dispersos, e trouxe ao accordo individuos, a quem rivalidades e desaffeições tiveram sempre extremados. A forma, porem, de lhe mover a guerra aventou-lhes suspeitas e desconfianças, que levaram alguns antes a apoiar o governo, do que a satisfazer vaidades mal contidas. E assim estamos, a este estado nos levaram os acontecimentos que uns após outros tem vindo agravar a turva situação. Atterra a indiferença manifestada por toda a parte. Falseado nos seus mais fervorosos appellos, illudido na sua boa fé, e escarnecidas as crenças mais arreigadas, o povo vê sem interesse as urnas abertas para receberem a sua opinião, a qual nem acha passado que a baseie, nem presente que a abone, nem futuro d’onde lhe venham esperanças. Daqui nasce a influencia dos que ainda merecem, talvez por não provados, algum conceito; ou daquelles que despidos d’escrupulos especulam com este lamentavel estado para se elevarem até onde mora o alvo das suas ambições.