Sr. redactor
O Diarifí Popular, sem apresentar nenhum documento mais do que a sua palavra honrada, escreveu ahi umas coisas sobre a uinocencia de dor condemnados que estavam prestes a embarcar para Africa, fazendo que as palavras, que leem realmente o cunho da convicção e boa fé, fossem acreditadas, e originassem interpellaçõe* em ambas as camaras, a que o ministério deve responder um destes dias. O Diário Popular foi sem duvida mganado. e, segundo o que escreveu posteriormente, tem informações fidedignas do contrario que afirmou. Entretanto não deixou de haver-se mahuma vez recorrido ao poder moderador, que mandou suspender a partida dus dois réus, até se verificar o que havia de verdade a tal respeito. Foi acatar muito a imprensa, por isso aqui agradecemos a tão delicado gabinete, ainda que taes finezas só merece a imprensa amiga. Estamos perfeitamente ao facto do occorrido relativamente a este assumpto, por isso e porque os promenores de crime tão horrendo não são maiormente conhecidos do publico, porque a imprensa os não publicou, julgamos conveniente apresental-os ao leitor para elle tirar as illações que lhe aprouverem. A família dos Ricos originaria de Arrayullos tornòu-se nestes annos odiosa por uma serie de crimes, mais ou menos justificados que todos attribuiam a grande parte dos membros da mesma família, e pela impunidade com que os praticavam escudados pela protecção da authoridade administrativa de então. Passamos em silencio os outros attentados para só resumirmos o ultimo, é que na realidade atroz, segundo o contaram as testemunhas actuaes que depozeram nas audiências da comarca de Monte-mór, onde os réus foram condemnados. O guarda da herdade das Rolans, concelho de Arrayullos, encontrando um dos irmãos Rico a fartar-lhe lenha, deu-lhe umas pancadas, de que resultou feril-o levemente na face. Este dirigiu á villa, queixando-se á irmã, cuja índole violenta elle conhecia: Marianna Rico, a celebre heroína, correu a chamar José Francisco Gomes Rico, e mais parentella, que se achavam n’uma vinha: ella propria ministrava cavalgadura; rasgava os vestidos de que fazia buchas para as clavinas, e incitando os irmãos lamentava não ter também calças. Depois de grande balbúrdia, sem ninguem ousar intervir, porque a autoridade tudo permittia áquella gente, e que todo o povo temia e odiava, partiram emfim em cata do guarda. Este fallava com um boieiro no momento em que ao longe appareceu a cavalgada dos assassinos: julgando o que seria pediu ao companheiro que se afastasse e só elle ficou em campo. José Rico vindo na frente, foi o primeiro a apontal-o e a desfechar uma clavina de dois canos, errando-o com ambos os tiros, o guarda desfechou também mas a espingarda não tomou fogo, o que lambem aconteceu ao outro irmão de José Rico; o boieiro que era homem decidido correu de faca em punho sobre este, que deitou fugir: José Rico, indo sobre os dois a galope, passou um cartucho á clavina, e, cuidando para não ferir o irmão, fez fogo a ó queima roupa sobre o guarda, que caiu por terra: foi este momento que deu logar a uma scena horrorosa: os Ricos cahiram sobre o infeliz, arrancaram-lhe a faca e faquearam-no por longo tempo: quebraram-lhe as pernas e braços com um machado que haviam pedido n’um monte proximo, á herdade da Pontega: cobriram depois o cadaver com uma manta e carregaram-no sobre o cavallo, que montava José Rico, indo escondel-o n’um centejal. Dizem que um cabreiro que os encontrou foi ameaçado de ter egual sorte á do que levavam se por acaso fallasse no que estava vendo; o cabreiro porem que estava por curioso não pôde ter-se de espreitar o que era o embrulho que os Ricos esconderam; achou um cadaver tão horrivelmente mutilado. Nessa noite diz-se que fôra um carro buscar alli o cadaver, fazendo-o desapparecer sem que até hoje se soubesse d’elle. Foi isto, em resumo, o que se provou em audiência, e que concorreu com outros crimes mais para a condemnação dos laos irmãos Ricos. Querem agora saber o estratagema de que se valeram para gosarem por uns mezes mais dos ares da patria, escapando-se nos calores da Africa, que os espera? Forjaram umas certidões, por meio de que pretenderam provar, que o guarda da herdade dos Rolans, fôra morrer pacificamente ao hospital de Canba com uma febre paludosa! E assim illudiram cremos nós, o juiz de Aldéa-gallega, a redacção do Diário Popular, e todos quantos tomam a serio os asseitos dos jornaes melhor informados. É de crer que uma questão tão ridícula, tão pouco seria termine brevemente, porque em casos desta ordem não se devem fazer cousas de certo gravidade, como é alterar a pratica da lei, sem fortes razões, que ainda não vimos produzir. Continuaremos sobre o assumpto se tanto fôr necessário, que temos informações dignas de credito. X