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Artigo

Mertola 15 de junho de 1869. Sr. redactor

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Tivemos um dVsies em Mertola os hospedes mais illuslres c - ha século* pisam as nossas calçadas—o filho de Luiz Felippe. de França—a filha Fernando VII de HêSpanha. e as lind^ lhas e netas destes illusires personagem, que escolheram este transito para transportarse á Hespanha. Chegaram pela manha — descançaram numa humilde estalagem, e embarcaram tarde em direcção ao Pomario aonde baldearam para um vapor da empreza de S. Domingas, e pouco mais abaixo para um outro vapor, que dizem ser da casa do sr. duque, que ahi os esperava, trazendo a seu bordo um bispo hespanhol, e que os conduzio a Villa Real de Santo Antonio. O sr. duque passeou pela villa; foi ao correio e á estação telegraphica, e observou algumas das antigas ruínas das muralhas mouriscas. Sabe-se que o sr. de Montpensier deitára carta no correio d’esta villa para o general Serrano e outros personagens de Hespanha, e não sabemos se também telegraphou. É notorio que sua alteza viera, dias antes, a Mertola, explanar os campos e ver se por aqui podia seguir, mas com tal disfarce que apenas n’esta segunda vez se notou ser a mesma pessoa. Magoa-nos sobre modo não termos breves indícios de que eram tão distinctas personagens, para que fossem acolhidas, senão com estrondosa recepção ao menos com mais decencia, como é dever dos povos civilizados, para com os filhos de notaveis reis da Europa, e quem sabe se futuros reinantes de Hespanha, como não parece muito duvidoso; mas os habitantes de Mertola só tiveram a certeza de quem eram quando o Bejense o disse; se bem que não hesitámos da elevada categoria dos illustres transeuntes, porque a grandeza tantas vezes se disfarça a um ponto de indifferença. O sr. duque de Montpensier deu por sua mão, duas libras aos pretos da cadeia desta villa; tres libras ao barqueiro que o conduzio ao Pomarão; e pagou com mão generosa tudo, e a todos que lhe prestaram qualquer pequeno serviço. Conheça, e sirva de estímulo ao nosso governo que é este o ponto premo, por onde transitam e transitarão de futuro: o pessoal d’uma grande parte da Hespanha, pelo menos de Chança até Cadiz, e de todo o Portugal e Algarve, devendo por isso dar incremento aos trabalhos da estrada entre Beja e Mertola, e á navegação a vapor entre Villa Real e esta villa. Ha quantos séculos esta via fluvial seria navegavel a vapor, se pertencesse a outra nação? Não estaria de certo desaproveitada; e não ficaria em Mertola o fluxo e refluxo das marés, mas, quiça o Tejo ajudaria este movimento na sua confluência artificial. Olhe pois o governo para isto. Deixe-se de caminhos de ferro ao sul — trate de navegar o Guadiana e terá feito quanto é possível e precizo. Os caminhos de ferro portugueses debilitam o thesouro, matam os povos, e enfraquecem o commercio, sem fallarmos da proficuidade que resulta a bem, tão sómente do passageiro; mas dar vida a cem para matar mil não é negocio de sabia administração, maxime, com dinheiros a alto juro—a experiencia já o vai demonstrando a governantes e governados. Portugal na sua pequena latitude abunda-lhe o ramal que o liga por Badajoz ao reino vezinho. Não abram muitas portas de viação rapida se seriamente se propalam os receios do iberismo. Não atêem o fogo que um dia nos pode queimar, ou não juntem a lenha que com uma faísca pode ser incendiada; e no seu juizo sómente o caminho de ferro de Lisboa ao Porto, e do Barreiro a Mertola; tudo mais é luxo e mau governo. Afinal resta-nos observar que os srs. Jeremias, e Simões, creatum das obras publicas, tem andado sondando o rio e consequentemente estudando os vãos junto a Mertola. Emitindo, sobre tal assumpto, nossa humilde opinião diremos que: as nossas obras publicas todas são morosas e caras. Verão em quantos contos orçam aquelles srs. a despeza de tal exploração, e, ha pouco o sr. visconde de Mason de S. Domingos disse: que lhe dessem 150 l. as que se obrigava á limpeza dos vãos com resultados navegáveis por barcas da maior lotação. Isto d’um inglez; mas os portugueses só a poder de tempo e de dinheiro realizam o pouco que nos tem arrastado. Fico hoje por aqui, para não abusar. Vm camponez mertolense.