Theatro
Repeliu-se no domingo o Jovtn Telemaco com egud applauso. Na quinta feira subiu á scena o Trabalho e honra, comedia dram* do «r. César de Lacerda, que agradou muito, sem duvida mis pelo merecimento do drama do que pelo desempenho. Ê realmenle este trabalho do sr. Lacerda uma das suas mais interessantes produções. Está bem architectado, tem muito effeito e em toda a parte transparece a moralidade, que é sempre o traço mais brilhante e conceituoso destes quadros dramaticos. O desempenho não devemos chamar-lhe máo. Ê certo, que o scenario deu mais vida, mais variedade e mais força a muitas scenas do seu drama, mas é certo também que os actores, se não se esmeraram muito, não prejudicaram todavia o valimento do drama e o bom nome do seu auctor. O sr. Sauguinetti interpretou regularmente o papel característico do barqueiro de Villa Nova de Gaia Christovão Martins e empenhou-se sinceramente em vencer as grandes difficuldades, que lhe pertenciam. E foi feliz e soube comprehender bem e as vezes com mimo muitas scenas do seu papel, especialmente na parte cômica. Desejaríamos entretanto, que o sr. Sauguinetti desse mais gravidade a certas scenas, onde usou, na nossa opinião, dos seus recursos comicos. O sr. Soares foi a victima do Trabalho e honra, porque lhe distribuiram o difficil papel de Carlos Martins. O filho do barqueiro é quasi um papel impossível, falta aos melhores actores recursos e inspiração para o representar com a distincção, que lhe compete. O maior esforço de um actor n’este papel é sempre um trabalho esteril e massador. Ou ha de ser um actor notável ou o seu desempenho desapparece e não impressiona. Ainda assim o sr. Soares revelou mais uma vez os recursos dramaticos, de que dispõe, e conseguiu fazer-se applaudir n’algumas scenas. O sr. Silva Junior e a sr.ª D. Gasparinha representaram bem os seus papeis. Á sr.ª D. Maria José pertenceu o papel de Olympia. Estamos tão acostumados ao trabalho esmerado d’esta actriz, que estranhámos a pouca consideração, que lhe mereceu a mulher de José Fernandes. É verdade, que o papel era muito insignificante para o merecimento da actriz, mas nós, senão o papel, esperavamos mais empenho da sua parte. A sr.ª D. Candida no papel de Genoveva estava completamente deslocada, não é esse o seu caracter, nem este o genero em que costuma trabalhar. Luctando todavia com as difficuldades do papel e com a impropriedade do caracter conseguiu agradar. Apresentou um bello typo, e sustentou-o muito regularmente. N’esta occasião devemos dizer, que nos parecia mais acertada a distribuição, em que a sr.ª D. Gasparinha se encarregasse do papel de Genoveva, a sr.ª D. Maria José do papel d’Amelia e o de Olympia podia fazel-o a sr.ª D. Malhilde. Assim o desempenho do drama seria melhor e as actrizes estariam mais á vontade nos seus papeis. O sr. Mendonça fez bem o seu papel e o resto dos actores não transtornaram o bom andamento do drama. Notaremos ainda de passagem, a pobreza e por vezes a impropriedade do scenario. Bem sabemos que as difficuldades, com que luta o sr. director de scena desculpam estas faltas, mas pouco tudo bastaria para melhorar, quanto possível, a scena do terreiro actual, especialmente. Não podemos exigir a casa de Carlos Martins, e o complemento de toda a scena do 1.° acto, nem tampouco o apparecimento do navio, em que Carlos parte para a Australia, no segundo acto, nem muitas outras cousas, mas o que não queriamos era ver uma cadeira de palhinha, uma mesa de polimento e não sabemos que mais n’um bosque ou jardim, ou mesmo praça. Era facil collocar na scena um banco de pedra, onde o barqueiro descançasse das suas fadigas para comer o seu caldo verde. São cousas pequenas mas que revelam descuido e pouco gosto no sr. director de scena. O espectáculo de domingo vae annunciado no lugar do costume.