Honorina Ster
O capitão do Evening-Ster que em companhia d’alguns marinheiros conseguiu salvar-se na occasião do naufragio d’aquelle barco ainda não ha muito succedido, entre varios promenores que refere d’aquelle triste acontecimento, conta a seguinte anedocta, tão commovente como dramatica. A bordo da embarcação iam quarenta artistas francezes, como passageiros. Honorina Ster, cantatriz muito estimada, estava sobre a coberta, com os seus companheiros durante a horrivel tempestade, que a cada momento ameaçava submergil-os. O terror lia-se em todos os rostos. N’aquelle momento, Honorina Ster, escutando só a grandeza de sua alma, teve uma sublime inspiração. No meio das furiosas ondas que atravessavam a coberta, no meio do perigo, a corajosa joven começou a cantar uma romanza de Henrion, intitulada «Deus só m’a restituirá» cuja letra se accommodava admiravelmente á situação. A fabula é singela e triste ao mesmo tempo. Um pobre marinheiro chora a sua amada arrebatada pelas ondas. A voz dramatica da artista domina a tempestade. Seus bellos cabellos fluctuavam á mercê do vento e davam a joven o aspecto d’uma apparição sobrenatural. Os demais artistas, assim como a tripulação, esquecendo a morte ouviam com piedoso recolhimento as palavras que sahiam de seus labios inspirados. No momento em que cantava: Do leito d’algas marinas Quem hoje a despertará ? A triste e deserta praia Deus só m’a restituirá ! As ondas mais furiosas, evadiram a coberta, e a cantora desappareceu no mesmo momento em que pronunciava as palavras. Deus só m’a restituirá ! Assim morreu Honorina Ster. O mar ficou contando mais uma sereia.