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Artigo

LISBOA 25 DE MAIO (Correspondencia particular)

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Braga · Lisboa · Loulé · Portalegre · Espanha · Portugal Correspondência · Exterior / internacional · Interpretacção incerta

As sessões do parlamento teem sido até hoje e sel-o-hão talvez até final da legislatura um escandalo como tem sido até hoje. O cofre das graças continua aberto pelo legislativo, e pelo executivo. Um entretem-se a dar titulos e condecorações, outro a conceder pensões, reformas etc., e sem se attender se a receita comporta com a despesa votada. No meio desta lufulufa de despesa improductiva até a pensão Penafiel se votou; se nesta gente existisse um sentimento de dignidade e amor pelo systema, a camara sustentaria as votações anteriores, mas levantou-se o sr. duque de Loulé e disse fiat e o escandalo fez-se, a maioria votou a pensão. Votou-se tambem a reforma da junta de credito, isto é, das repartições, porque em quanto á Junta o nobre ministro das moureclas de Arouca tornou a afiar o dente contra esta util e necessaria instituição. E sabem a rasão do afiamento do dente contra a junta? é porque ella é uma barreira, á factura das inscripções mais do que a lei designa. Isto é que estes progressistas não querem. Diante d’elles tudo deve ceder desde as administrações brilhantes inauguradas nas provincias do norte, umas á mocada outras a tiro, até á prepotencia do Mendes dos Furacões a extinguir empregos, unicamente porque suppõe ser auctor dos artigos um empregado do ministerio da marinha. Ora se a regeneração em 1851 tivesse applicado a mesma doutrina ao sapientissimo Cartographo quando na Lei atacava a honra de Fonseca de Magalhães e lhe extinguissem o logar o que diria o ministro da Fome? Chamaria a isto progresso e tyrannia? Mas como o sr. Nascimento é chamado ao gabinete, e extincto o logar em nome do progresso então é uma virtude. Ah! catões, catões. No meio de todos os escandalos o projecto dos raptos parlamentares de que é auctor o nobre e independente caracter do sr. José de Moraes, foi dado para a ordem do dia de hoje, mas tememos que não se discuta porque quem rege os trabalhos não é o presidente, é um Tanas ou Quaresma qualquer que exige se ponha em discussão um projecto que elles imaginam salvar a patria. A camara como está é uma anarchia. As emendas ao orçamento tiveram hontem discussão. O sr. Casal mostrou evidentemente o pessimo estado da fazenda publica, e que o paiz em mãos dos Aroucas ia em declive rapido. As rasões procedentes do sr. Casal, respondeu o ministro com uma verrina. É o costume não ha que estranhar. Approvou-se a creação em Braga do banco do Minho, e na camara dos pares o projecto para a lei das dotações das estradas municipaes. A reforma do exercito dá que fazer; a commissão de guerra e fazenda não chegaram a um accordo; sabe-se porem que só o capitão Cunha relator da commissão de guerra approva o projecto do governo, os mais membros são todos contra. As reclamações começam a affluir e devem vir porque se a lei passasse os officiaes d’infanteria nunca chegariam a generaes. Ora quando em todos os exercitos o generalato é por armas, aqui segue-se o contrario. Onde estão as opiniões d’hontem do sr. Bessa (tenente coronel do estado maior) que defendia a idéa da approvação do generalato ser por armas, e hoje a toma exclusiva das armas scientificas? Pois o exercito são só as armas scientificas? A cavallaria e infanteria, pesando sobre esta o serviço de policia, não será digna de consideração do governo? Para se ver quão parcial é a reforma, basta ver que os officiaes superiores do estado maior são eguaes aos capitães. Para que se augmentou o n.º de officiaes na artilheria? Porque criam mais um regimento? Não porque se attendessem a economias, diminuíssem no estado maior os logares de officiaes superiores. A cavallaria essa se não ficou apeada foi por milagre. Depois que reforma é esta que extingue e faz desapparecer a artilheria de montanha n’um paiz essencialmente montanhoso? E com as baterias de campanha que hão de trabalhar na serra da Estrella, em Portalegre, em Tras-os-montes? Pobre paiz! desarmam-no, e não se lembram que a Hespanha, unico paiz limitrophe com quem podemos ter guerra terrestre, tem bella artilheria de montanha, e que hoje pelo systema das peças raiadas a montanha chega onde chega a outra artilheria? E que alem disso uma bateria de montanha é muito mais barata que uma de campanha, porque com 16 muares teem uma bateria de 4 bocas de fogo? a nada d’isto se attende? Para que? Basta que haja 1 marechal general e 2 marechaes do exercito, e tá tudo salvo. Desculpem estas reflexões feitas ao correr da penna, que não podem ser tomadas como um estudo sobre a reforma, mas que é unicamente apontar o que ha de mais esquisito, nesta monumentoca obra. No domingo foi a procissão de transferencia de S. Vicente para a Sé. A procissão ia bella e grandiosa, levava os andores de Santo Antonio levado pelos meninos do coro, S. Sebastião, S. Anna, N. S. da Rocha e as cinzas de S. Vicente levadas por 4 diáconos paramentados; no fim ia o cabido em habitos coraes, que foi revestido na Conceição Velha, levando s. ex.ª o sr. patriarcha o Sacramento. Acompanhavam a procissão as irmandades de N. S. da Conceição e Enfermaria, Passos das Monicas e S. Vicente, e as irmandades do Santissimo de S. Vicente, Sé, Resurreição, Magdalena, S. Christovão, S. Lourenço, S. André, S. José, Santos e S. Catharina. Á noite illuminou-se a frontaria da Sé e tambem as frontarias das casas dos habitantes da freguezia. Cahiu hontem ás 3 horas uma forte trovoada sobre Lisboa, durou cousa de 1 hora; cahiram differentes raios, um no terreiro do ministerio da guerra partindo as lanças dos trofeus, outro n’uma trapeira da rua Augusta, um no rio, e outro junto a Odivellas, que incendiou um moinho de vento, matou um homem e feriu tres pessoas. Hoje tem chovido bastante. Por hoje não posso ser mais extenso.