Beringel—3 de setembro de 1879. Sr. redactor
Mais uma vez chamamos a attenção dos poderes competentes para o estado insalubre desta povoação. Esta villa está, em parte, orlada pela ribeira, obstruida com balsa e grandes pedras movediças que obstam á sahida das aguas, e forma pantanos, medindo o lodo, sempre revolto pelos porcos, mais d’um metro de espessura, n’alguns sitios fazendo-se sentir as exalações pútridas a grande distancia, maxime pela manhã e á noite. Este perene foco d’infecção já visto pelo ex-governador civil, o sr. visconde da Boa Vista, e pelos senhores delegado de saude e director das obras publicas, quando o povo enfermou quasi todo, em poucos dias, fazendo-se derivar o mal do pernicioso ar que respiramos, sendo a ribeira quem nos envenena e mata. Muito boas palavras, muito projecto, e muito pouca boa vontade, porque nada se fez, ficamos no mesmo estado, sendo certo que o mal se aggrava. O bem estar do povo, a saude, é coisa muito secundaria para que se trate a serio. Paga, e geme!... A parte da villa não orlada pela ribeira, tem uma orla de grandes depositos d’estrume até mesmo proximo dos poços publicos; no centro deste circulo de peste vivemos nós, tendo em uma grande parte dos pequenos quintaes um ou outro foco d’infecção, porque os quintaes só são limpos de anno a anno, e n’esta época o lixo reune-se na rua até que seja transportado para o deposito, ou para as terras, operação que dura muitos dias; muitos dos quintaes só tem communicação pela casa de habitação, e muito devem soffrer os donos da casa porque muito soffrem os vizinhos ainda os mais afastados. Se este estado de coisas continuar, as consequencias podem ser fataes para este povo. O distincto medico, o sr. Joaquim Baptista Ribeiro, que com a maior assiduidade visita este povo duas vezes na semana, póde bem justificar o que dizemos, e sabe que a parte do povo que mais soffre, é o que mais em contacto está com a ribeira. Quanto não soffrem as pobres lavadeiras que vão para a ribeira pelas tres e quatro horas da manhã e na ribeira passam o dia expostas a um sol abrasador! Para que tudo seja contra nós, até houve a atilada lembrança de construirem o cemiterio muito proximo da villa, ao norte, ficando-lhe perto, lado inferior, um dos poços publicos! O terreno é mau porque abre grandes fendas, e por pouco fundo, resulta que n’este recinto se dê pelas exalações logo que aqui se entra. O mal está feito, e como está feito não se remedeia! Quando isto se dá em uma importante freguesia, outrora concelho, a 11 kilometros da capital do districto, não nos deve surprehender do que se passa por ahi além! Continuando muito na illustração e seriedade do actual chefe do districto, temos plena confiança em sua ex.ª, esperamos algumas providencias que pelo menos attenuam o mal que soffremos, porque este estado é impossivel. F.