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Promettemos illucidar os leitores ácerca das declarações de D. Carlos e, cumprindo a nossa promessa, vamos transcrever do Figaro o importante artigo que sobre o assumpto escreveu. Eil-o: «Desde hontem que toda a imprensa se occupa de uma combinação politica relativa á reconciliação de D. Affonso com D. Carlos, sendo este reconhecido como infante de Hespanha. Em presença d’este estado de coisas, o Figaro resolveu visitar D. Carlos. O príncipe recebeu-nos com a maior amabilidade, e depois dos cumprimentos do estylo e justificado do fim da nossa visita, disse: “Affirmo do modo mais terminante que não renunciei, nem jamais renunciarei, os meus direitos á corôa de Hespanha. Quando estive no campo da batalha, protestei pela bocca dos meus canhões; hoje não posso fazer o mesmo, porem, do intimo da minha consciencia protesto e protestarei sempre. O meu dever é salvaguardar os meus direitos e os da dynastia que represento, assim como os principios gravados na minha bandeira, que é a da Hespanha. Direi mais que, á parte a questão de legitimidade, e abstrahindo de toda a idéa monarchica, não me é possivel fazer concessão alguma n’este ponto.” E tendo nós supplicado ao duque de Madrid que explicasse o seu pensamento, juntou: “Para mim é evidente que meu primo Affonso não reinará muito tempo: as massas populares em Hespanha são carlistas ou republicanas. Affonso que deve a corôa a um pronunciamento, subiu ao throno, e está amparado por um estado maior que, mais tarde ou mais cedo, tem de desapparecer com elle. Supponhamos que eu tenha a fraqueza ou commetta a cobardia de levar a cabo o acto que se me attribue; que auxilio poderia prestar a meu primo? Seguir-me-hiam acaso os que estão dispostos a verter o seu sangue pela minha causa e que tantas provas me deram da sua dedicação? Certamente não. Nesse caso não faria mais do que succumbir com Affonso, e a republica seria proclamada, porque a minha bandeira em volta da qual se poderiam agrupar todos os partidarios do systema monarchico, em geral, succumbiria na mesma queda. Não me fallem de monarchias estrangeiras porque todos sabem, desde muito, que são impossiveis em Hespanha.” Perguntamos-lhe se o boato do seu reconhecimento teria partido de Vienna. D. Carlos não se explicou n’este ponto, e como envolvessemos nas nossas perguntas o nome do conde de Chambord, disse: “As minhas idéas sobre os meus direitos são absolutas, inteiramente absolutas. Pois bem: eu affirmo que são as de meu tio, o conde de Chambord, que em muitas occasiões declarou que não reconhece senão eu como legitimo rei de Hespanha.” Antes de nos retirarmos, pedimos-lhe a sua opinião sobre a reconciliação de ambos os ramos dos Bourbons de Hespanha, e depois de reflexionar um instante, volveu D. Carlos: “Ninguem mais do que eu deseja essa reconciliação sobre a base da lei semi-salica feita por Philippe 5.º de accordo com as cortes.” O projectado casamento de D. Affonso com a archi-duqueza d’Austria veio semear a discórdia e a confusão no seio dos denominados partidos legaes, isto é, dos proprios monarchicos-affonsinos. Entre a imprensa jogam-se de parte a parte chufas e doestos e poucos são os que pretendem ficar com a responsabilidade dos successos. As folhas do partido conservador tanto de Hespanha como de França esperavam e com o regresso dos communistas a Paris ter occasião de entreter os seus leitores com a descripção de novos disturbios e portanto, preparem-se para cobrirem de doestos a republica. Falharam porem todas as suas esperanças. A primeira remessa de deportados da Nova Caledonia chegou a Paris ás 3 horas da manhã do dia 3 do corrente. Os amnistiados d’esta primeira leva são tresentos e quarenta e seis e na estação do caminho de ferro eram esperados por mais de quinze mil pessoas e não se ouviram gritos subversivos, nem por um só momento se alterou a ordem publica. E assim continuará. A situação e as idéas de hoje não se parecem em nada com as de 1871. Não é facil reproduzir-se outra vez a communa. A questão suscitada entre a Allemanha e o Vaticano e bem assim a posição hostil que a imprensa moscovita tem tomado para com a Russia são assumptos que estão na tela da discussão. A Correspondencia politica, de Vienna diz que o chanceller allemão resolveu terminantemente não travar nem admittir discussão sobre os quatro pontos seguintes: 1.º A lei sobre as corporações religiosas, o que equivale a manter rigorosamente a expulsão dos jesuitas. 2.º A inspecção dos seminarios pelo estado e a necessidade de que o clero catholico curse tambem as universidades. 3.º A obrigação dos bispos darem conta ao poder civil de toda e qualquer nomeação ecclesiastica que façam. 4.º A camara ecclesiastica de Berlim, com jurisdicção sobre os bispos e faculdade de transferi-los ou demitti-los das suas dioceses. As negociações pois para o accordo podem ser consideradas não obstante os esforços empregados para a sua realisação pelos ultramontanos. As acerbas polemicas levantadas de ha muito entre a imprensa russa e a imprensa allemã tem tomado n’estes ultimos dias extraordinaria excitação. O pomo da discórdia é a questão do Oriente e a deficiencia do tratado de Berlim, que sempre considerámos como germen de novas complicações para o futuro. É porem de esperar que a linguagem se modere de parte a parte e mui principalmente com a entrevista dos chancelleres dos dois imperios que ha pouco teve logar e á qual se liga grande importancia. Não quer porem isto dizer que não estamos longe d’uma guerra entre a Allemanha e a Russia. A mais pequena faulha poderá produzir um grande incendio. São importantes as noticias recebidas em Londres ácerca da guerra com os zulus. Os chefes que combatem ás ordens de Cettiwayo parlamentam todos os dias com o general em chefe das tropas britannicas, e quando chega o momento de submetterem-se, segundo promettem, desapparecem para apresentar-se pouco depois a alguns kilometros de distancia do quartel general. Esta situação causa graves embaraços a sir Garnett Wolseley, que não sabe com quem trata, quando mais necessario lhe é fazer a paz para acudir ao Transvaal onde começa a manifestar-se uma grande corrente de emigração para as possessões portuguezas, por que os boers estão descontentissimos com a dominação ingleza. Em Natal não andam as coisas em melhor estado, e urge a reorganisação da colonia. Tudo isto se sabe perfeitamente em Inglaterra onde ha grande inquietação pelo perigo que corre o dominio britannico, e para que as susceptibilidades da imprensa e do publico se acalmem, é que se annuncia quasi diariamente que a paz está proxima. O bispo Colenso, que passou como é sabido, grande parte da sua vida no paiz dos zulus, o que conhece perfeitamente aquellas tribus, escreveu a um dos seus amigos, dizendo-lhe que, depois da victoria de Ulundi, lord Chelmsford teria pedido celebrar um tratado de paz se houvessem sido razoaveis as condições propostas. Accrescenta que sir Garnett Wolseley labora em grande erro se julga que Cettywayo está abandonado pelos seus. Todos se conservam fieis ao seu rei, e qualquer tratado de paz que não seja celebrado directamente com o valoroso chefe nenhuma duração poderá ter. Os recentes successos no Afghanistan trazem preoccupados os espiritos na Grã-Bretanha. Rebentára uma insurreição em Cabul contra os inglezes. Os membros da embaixada ingleza foram assassinados. Estes factos produziram vivissima excitação na India ingleza, d’onde marcham forças sobre Cabul. O emir não adheriu á revolução e pede auxilio ás forças britannicas.