Voltar ao arquivo
Artigo

Carta do Porto

Arqueologia e patrimónioCultura e espectáculoEducacção e instruçãoEstatísticasExércitoMunicípio e administracção localPolítica e administracção do EstadoReligiãoSociedade e vida quotidianaAssociaçõesAssociações recreativasBeneficênciaCulto e cerimóniasDebates políticosDescobertas e achadosEleiçõesExamesiluminação públicaLivros e publicaçõesNomeaçõesNomeaçõesNomeações eclesiásticasObras municipaisObras religiosasProfessoresSessões da câmara
Braga · Lisboa · Porto · França · Portugal Correspondência · Exterior / internacional · Interpretacção incerta · Moderno

11 de setembro de 1879. No numero da Emancipação correspondente a domingo 31 de agosto findo, vem publicada uma correspondencia de Lisboa, assignada por Chénier, na qual o auctor alludindo á candidatura socialista pelo circulo 94 diz que os progressistas a apresentaram para dividirem os votos dos avançados e para provar isto diz que não se comprehende d’outra maneira a opposição que movem contra o illustre professor do Curso superior de lettras, dr. Theophilo Braga que era quem no parlamento podia melhor advogar os interesses da classe operaria. Permitta-me o desconhecido correspondente que eu ainda que humilde e obscuro lhe rebata a sua asserção. O candidato proposto n’este circulo 94 e a que o sr. Chénier allude não foi apresentado pelos progressistas mas sim pelas associações operarias socialistas de Lisboa que querem d’esta maneira dar uns symptomas da sua vitalidade, guerreando a candidatura do sr. Theophilo Braga porque o sr. Chénier deve saber que o partido socialista não transige com nenhum partido quer monarchico, quer republicano e que se declara opposição franca a todos os partidos existentes; os socialistas não deixarão de reconhecer no sr. Theophilo um grande talento e uma rotunda erudição, mas não é isso caso para que o não guerreiem a eleição, porque elles não fazem guerra a homens, é simplesmente ás idéas. E emquanto a ser o sr. Theophilo Braga o que podia melhor defender no parlamento a classe operaria, não pode ser porque o insigne professor está filiado no partido republicano. Não pode defender os operarios quem está filiado n’um partido que admitte como legal a exploração do trabalho d’um homem por outro, que além de nada produzir que seja util, ainda trata os subordinados com uns modos despóticos e tyrannos; já vê pois o sr. Chénier que se enganou no que disse. Na minha primeira correspondencia disse eu que os socialistas não apresentavam candidato pelo circulo por onde se propuzesse o republicano Rodrigues de Freitas, mas fui mal informado, propõem um operario gravador de Lisboa, cujo nome já dei na correspondencia antecedente. Foi declarado o dia 19 de outubro para se proceder a nova eleição; os trabalhos aqui correm bastante animados; o partido progressista apresenta candidatos os mesmos cavalheiros que representaram esta cidade na camara dissolvida. (Mariano de Carvalho, Adriano Machado, Rodrigues de Freitas.) Houve aqui quem reparasse na teimosia do centro em propôr novamente o illustre portuense e republicano Rodrigues de Freitas, que tão contrario se mostrou ás idéas progressistas do partido, na polemica que encetou com o sr. Luciano de Castro, por occasião da discussão da familia real. O centro regenerador tambem teve reunião mas não apresentou os seus candidatos, limitou-se a nomear a mesa que deve dirigir os trabalhos eleitoraes a qual ficou presidida pelo digno par do reino Francisco José da Silva Torres; á reunião presidiu o conselheiro José Guilherme Pacheco, ex-deputado por Paredes. O dia da lucta está perto; dizem que ha probabilidades de victoria para os regeneradores. Veremos o depois parlamentar. Brevemente verá a luz publica um jornal satirico intitulado O Tam-Tam; no dia 1.º sahirá outro sob o titulo O Espelho. É grande a miseria que aqui existe entre a classe operaria. Os patrões teem reduzido, por effeito da sua ambição desmedida, grande porção de artistas e não lhes podendo dar sahida, aproveitam qualquer pretexto para diminuirem os seus salarios, ou despedirem os trabalhadores. O resultado d’isto é o que todos os dias estamos vendo, infelizmente; nos logares publicos mais concurridos, grupos de artistas que sem trabalho e ao fim de uma lucta cruenta contra a miseria se resolvem a implorar a caridade publica, sem que esta suprema humilhação possa enternecer os corações dos opulentos, modernos negreiros feudaes que unicamente teem por divisa a hypocrisia e a maldade. A maioria dos trabalhadores tem desprezado as associações operarias e por isso soffrem todas as tyrannias que lhes fazem e continuarão a soffrer emquanto não sahirem d’esse lethargo, emquanto estiverem immersos no indifferentismo em que teem estado; a união de todos trazer-lhes-ha a emancipação social. Não se realisou como tinha dito, a reunião dos tecelões no dia 31. Não sei ainda quando será mas creio que não passará do dia 14. No mesmo dia haverá uma reunião eleitoral, para a qual são convidados todos os operarios eleitores, na cima n.º 50 do largo da Fontinha; informarei do que souber. Á redacção do Bejense e aos seus leitores peço desculpa de não ter satisfeito talvez á missão do correspondente; no entanto eu escrevo o que sinto, a minha linguagem é a expressão fiel das minhas convicções. Braz Carvalho.