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Um dos mesmos, no dia em que em Paris teve logar a festa para os inundados de Murcia, fizeram ruidosa manifestação de agradecimento á França, em frente do palacio do embaixador francez; a manifestação teve caracter politico, e, pelo procedimento da policia, tomaria maiores proporções, se alguns dos mais influentes do partido democrático, não tivessem recommendado socego. Os factos vão corroborando o que temos avançado com respeito á causa da restauração. Eis mais acceita a imprensa um correspondente de Madrid: «Todo Madrid, com excepção dos edificios publicos, amanheceu hontem de gala, por causa da grande festa de Paris, e em muitas janellas viam-se bandeiras francezas e hespanholas entrelaçadas. A illuminação esteve grandiosa. Á ultima hora foi o momento culminante de uma grande confusão. A um dos seus balcões o embaixador francez appareceu, agradecendo em nome do povo francez, e pedindo que o povo se retirasse. Assim se fez. A policia, porém, e outras forças não deixaram de apparecer e de querer dissolver o ajuntamento. A multidão, não querendo dispersar, seguiu cantando a Marselheza até aos cafés de França e de Paris, e depois á redacção do Imparcial, Globo e Liberal, e por fim á Porta do Sol. A policia tentou dissolver o grupo, mas não o conseguindo disparou alguns tiros e accommetteu o povo á cutilada. Das provincias chegam aos centros democráticos de Madrid as mais lisonjeiras noticias de adhesão e de perfeito accordo. Em resultado da oppressão exercida sobre a imprensa, começam a apparecer folhas clandestinas e tudo faz crer que a monarchia não logrará estar por muito tempo de pé.» De Paris temos a noticia da crise ministerial, crise preparada pelo sr. Gambetta, que, digam as folhas conservadoras o que disserem, é a alma da republica franceza. Mr. Jules Grévy, acceitou o facto como resultado d’uma necessidade imperiosa e, depois de ter consultado varios individuos que pela sua importancia mais representavam na actual situação politica, encarregou o sr. Freycinet de organisar novo gabinete. Não estamos, ao que parece, longe d’um serio conflicto entre a Russia e a Allemanha. A este respeito o Tagblatt de Berlim recebeu de Vienna a seguinte importante communicação: «Uma carta dirigida de Cracovia á Bohemia, jornal muito prudente e circumspecto, e por vezes inspirado nas altas regiões, confirma, segundo informações tomadas de origem digna de todo o credito, as noticias a respeito da Russia, que está concentrando presentemente consideraveis forças militares na fronteira occidental, sobretudo na Polonia. Os officiais russos applicam-se particularmente ao estudo da lingua allemã. Os negocios politicos na Turquia e no Afghanistan não correm tão lisonjeiros para os interesses da paz como seria para desejar. Em Constantinopla, ha entre os ministros da velha Turquia a mais tenaz opposição á execução das reformas consignadas no tratado de Berlim, e, posto que os partidos da Joven Turquia, de accordo com os embaixadores estrangeiros, façam altos esforços com o sultão para levar a cabo as reformas politicas e economicas, alias indispensaveis, o facto é que os povos, a quem ellas beneficiariam, continuam sujeitos ao despotismo de ferro, peculiar entre os ottomanos. Ainda ha pouco que em Constantinopla foram condemnados á morte quatro padres musulmanos pelo facto de terem traduzido a biblia; sir Layard, embaixador inglez n’aquella capital, declarou em uma nota ao governo que exigia os seus passaportes se no prazo de tres dias os padres não fossem postos em liberdade.» Basta este facto para se conhecer o principio despótico que preside a todas as deliberações do governo ottomano. São cada vez mais graves as noticias do Afghanistan, onde o general inglez Roberts se acha cercado por numerosas forças das tribus sublevadas contra os inglezes. Roberts está em Sherpur e aguarda reforços. Em todo o Afghanistan se prega a guerra santa contra os inglezes e de dia para dia mais se accentua a desconfiança de que a propaganda revolucionaria é feita sob a influencia moscovita; a ser assim, não estaremos igualmente longe d’uma seria divergencia entre a Grã-Bretanha e a Russia; a esta não lhe esquece a posse de Chypre pelos inglezes e a tentativa por elles feita para implantarem a sua influencia nas provincias turcas na Europa e na Asia; a Inglaterra, ciosa do predominio nas terras conquistadas, tem em mira destruir dessas paragens a influencia moscovita. Esta divergencia, ou por outra, este dualismo, poderá sem duvida ser o germen de gravissimas complicações para o futuro. Por emquanto as questões tratam-se com a penna na mão nos gabinetes dos diplomatas, amanhã poderá muito bem ser que se discutam e se resolvam de espada em punho e de canhões assestados nos campos da batalha.