Voltar ao arquivo
Artigo

Carta do Porto

Cultura e espectáculoEducacção e instruçãoReligiãoSociedade e vida quotidianaConflitos locaisCostumes e hábitosFestas religiosasLivros e publicaçõesObras religiosasProfessoresTeatro
Paris · Porto · França · Portugal Correspondência · Exterior / internacional · Interpretacção incerta

Janeiro de 1880. Cidadão redactor. — Sahiu ultimamente á luz, n’esta cidade, a Gazeta do Realismo, orgão da ultima bohemia, redigido segundo elle diz no café lisbonense, e segundo o meu humilde entendimento, redigido em algum prostibulo. Nem d’outra maneira se póde entender se attendermos á linguagem empregada no tal papel. Da sua leitura deduz-se que foi escripto e publicado por individuos que teem por costume quotidiano chafurdar no bordel. Fallo neste periodico (se é que merece tal nome) para que façam idea de como campeia desenfreada a desmoralisação que já não respeita a sublime invenção do immortal Guttemberg. Tem-se fallado com muita insistencia na demissão do dr. Thomaz Lobo, chefe deste districto e progressista de par sem. S. ex.ª tem-se visto atrapalhado com a questão da testamentaria do conde de Ferreira; segundo lemos n’um jornal o dr. Lobo viu-se ameaçado por alguem que está á frente da administração da misericordia desta cidade e que é interessado em que se esclareça a questão; esse alguem era regenerador. A escripturação da santa casa não está em muito bom pé por este motivo o dr. Lobo, que é como já disse progressista, ameaçou por sua vez o tal alguem regenerador. E assim está a questão: nem para um lado nem para outro. Estes factos tinham muitos commentarios, mas o diminuto espaço d’uma correspondencia não os permitia. Realisou-se no dia 21 de dezembro findo a reunião publica no theatro Baquet, em que o sr. Rodrigues de Freitas, deputado pelo circulo central do Porto, agradeceu aos seus eleitores a honra que d’elle depositaram, conferindo-lhe o seu mandato. O erudito professor discursou largamente aproveitando a occasião para fazer uma resenha dos acontecimentos de Portugal. Não pude assistir á reunião e por isso aqui mesmo declaro que faço obra por informações; isto para evitar inconvenientes. As innundações de Murcia, vão tornando-se uma calamidade geral; depois da festa da imprensa franceza, depois do Paris-Murcia, depois do Murcia-Paris, depois do numero extraordinario de La Ilustracion española e americana, depois dos innumeros espectaculos em beneficio dos innundados, apparece agora o Porto-Murcia publicado pelos srs. Sá d’Albergaria e Sebastião Sanhudo, o primeiro director litterario e o segundo director artistico. Sem nos declararmos contra a lembrança não cremos que ella seja só philanthropia. Quer-nos parecer que leva outra mira, porque ainda não pude esquecer os factos que se deram por occasião das innundações em Portugal em que a maior parte dos philanthropos sonharam com habitos, titulos e commend as. Isto que deixo dito não é mais que uma suspeita minha que desejo muito seja infundada, e que o futuro me convença do contrario. O Congresso operario-socialista que se devia celebrar no mez de janeiro n’esta cidade, ficou addiado para o mez de março. Abriu-se pela primeira vez no Porto, em Portugal, o parlamento operario, instituição destinada á analyse e discussão de todos os assumptos que forem presentes nas duas casas legislativas. Á sessão inaugural presidio o nosso amigo companheiro José Maria Pina e serviram de secretarios Joaquim Pinto de Carvalho e A. A. Bessa Carvalho; ao abrir da sessão em nome dos interesses da classe operaria portugueza, foi lida pelo secretario uma allocução dirigida em nome da mesa a todas as pessoas presentes. A casa onde funccionára o parlamento operario-revolucionario onde teve logar a inauguração, estava modestamente decorada lendo-se em diversos escudos os seguintes lemmas: A união faz a força. A emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos mesmos trabalhadores. Não mais deveres sem direitos, não mais direitos sem deveres. Em outro escudo lia-se a data da inauguração. Na proxima carta enviarei os nomes dos individuos que foram eleitos para presidirem aos trabalhos e irei dando conta das discussões ventiladas. Termino desejando aos leitores, boas festas. Bessa Carvalho.