Acontecimentos na Europa
O ultimo attentado contra o imperador veio demonstrar que os esforços da justiça na perseguição aos nihilistas teem sido ineficazes. É forçoso reconhecer que em todos os crimes dos nihilistas ha direcção superior, cooperação numerosa e proposito inabalavel, que não muda nem se modifica com as contrariedades nem com as perseguições. Em toda a Rússia existe hoje uma aspiração liberal, á qual de certo repugnam os extremos criminosos dos nihilistas, mas é certo que estes contam muito com a agitação do espirito publico e principalmente com a resistencia do imperador ás reformas pedidas, que com o tempo irá transformar em exaltados os que são hoje impacientes pela suspirada hora da liberdade. Por poucos que sejam os nihilistas, parecem numerosos, não só pela enormidade e audacia dos seus crimes, como pelo segredo impenetravel acerca do modo como põem em pratica os seus projectos. A audacia chega a ponto de annunciarem os seus attentados, como o de Moscou, e ultimamente o do palacio de inverno, como se verá da seguinte proclamação publicada pelo centro nihilista: “No 1.º de dezembro rebentou em Moscou uma mina destinada a acabar com o imperador A. N. Infelizmente não fomos desta vez bem succedidos. Por motivos faceis de prever, parece-nos a occasião desfavoravel para indicar immediatamente os motivos porque falhou a tentativa. Pedimos com instancia aos nossos amigos que não se deixem intimidar nem desanimem com o malogro d’estas tentativas; conhecemos os nossos erros e trataremos para o futuro de os emendar. Não recuem. Alexandre Nicolau escapou d’esta vez; provavelmente não será tão feliz n’outra occasião. Ha de succumbir o mais cedo possivel, e antes mesmo de celebrar o seu jubileu.” N’esta ameaça estava já planeada a tentativa feita no palacio de inverno. O estado politico da Europa é um dos assumptos que mais se debate na imprensa. Eis o que a tal respeito escreve La Republique Française. Á primeira vista, os preparativos militares que febrilmente se trabalham de todos os lados, desde muitos annos a esta parte, não são muito para tranquillis ar. O espectaculo de um continente inteiro armado até os dentes é desolador, confessamos. Mas não devemos por isso deduzir a illação de que, uma vez que todos se armam, é porque todos se preparam para uma lucta encarniçada e feroz. Não é, pelo menos, d’essa opinião um estadista cujas opiniões teem peso na Europa e que pensa que, quanto mais espingardas houver, mais probabilidades hão de não servirem. Sem partilharmos absolutamente d’esta bonissima opinião, julgamos que a Europa está fatalmente soffrendo as consequencias de memoraveis acontecimentos e soffrel-as-ha ainda por largo tempo, sem por isso sair da neutralidade inquieta e inquietadora em que a historia contemporanea a tem amarrada com uma logica implacavel. Perspectiva dolorosa e melancholica, dir-se-ha; não o contestamos. Os que amam o trabalho e a segurança lastimam-se justamente; mas, apesar das legitimas maguas que reconhecemos, deve resignar-se a acceitar o destino que actualmente se impõe ao continente. A Europa perdeu o seu equilibrio em 1870; até hoje ainda não o firmou, nem tão pouco o firmará por esta epocha proxima. O agrupamento das forças mudou, e desde então a desconfiança deslizou e enraizou-se em todos os espiritos. Julgou-se que a lucta no Oriente equilibraria melhor as forças na Europa; succedeu exactamente o contrario. O problema tornou-se mais complicado; a guerra deu origem a difficuldades cuja solução se perde no escuro do porvir. Outr’ora o Oriente era abrasado pela rivalidade da Russia e do imperio ottomano; hoje esse antagonismo cessou, dando logar a um estado de cousas d’um caracter formidavel. O imperio russo está sempre na brecha, mas em vez da Turquia mutilada e esfarrapada levanta-se em frente d’elle o imperio dos Hapsburgos; isto é, que o fim da lucta está substituido pelo começo de uma outra. A Russia, mordida pelo descontentamento, julga-se illudida, burlada; arma-se. A Austria-Hungria, apoiada pelas sympathias allemãs, deleita-se no sonho da supremacia oriental, a que a Russia não renunciou; arma-se. A Allemanha arma-se tambem; trabalha nas casernas ha muito tempo. Eis, pois, a maior porção da Europa, de espingarda ao lado, esperando que as impaciencias de uns e a colera surda e reprimida de outros se manifestem. O congresso de Berlim esboçou o regulamento da questão do Oriente. Fez o que foi possivel fazer. Estaria, porém, nas forças do congresso restabelecer o equilibrio da Europa? Ninguem lh’o podia sensatamente exigir. Quem restituirá ao continente a tranquillidade que fugiu espavorida d’elle? Não sabemos; não podemos decifrar o enigma de um futuro incerto. Limitamo-nos unicamente a apresentar o traço d’uma situação que está longe de tocar o termo; situação grave, dolorosa, crivada de perigos, mas inevitavel. Um outro assumpto começa igualmente a preocupar o mundo politico, e acerca do qual já a imprensa pariziense se occupa largamente. Referimo-nos á encyclica do papa acerca do divorcio. Leão XIII julgou por conveniente entrar n’essa importante questão que se discute em França. A encyclica não parece conseguir os fins a que visou o partido ultramontano. São estes os factos de maior importancia da pretérita semana.