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Aljustrel

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Aljustrel · Portugal Interpretacção incerta

Sr. redactor. Deu-se hontem aqui um facto, que mais uma vez veio confirmar a veracidade do proverbio: Ninguém as faz que as não pague. Historiemos. No tempo em que Manoel José Rodrigues de Figuiredo era administrador d’este concelho, entre as innumeras arbitrariedades que commetteu, apprehendeu a Luiza Maralhas um meio alqueire, por illegal e não aferido. Poderiamos dissertar largamente ácerca da injustiça d’essa apprehensão e certamente o fariamos se a questão não tivesse sido bem notoria e debatida nas columnas do Bejense. Pois bem! O famoso Luneta foi encontrado hontem no celleiro do sogro, dando sabida a uma porção de trigo, medido por um alqueirão, cujo ultimo aferimento tinha sido feito em 1841!!! Foi, como é naturalissimo, a medida apprehendida, e o doutor autuado á presença d’umas quantas testemunhas. Ora agora ponhamos em parallelo os dois factos e vejamos o que podemos concluir. A apprehensão feita á Luiza Maralhas foi em tempo que as novas medidas para seccos não estavam rigorosamente sujeitas á aferição. A apprehensão feita ao Luneta teve logar hontem, na epocha presente em que todos teem ido aferir as suas medidas; Luiza Maralhas não vendia nesse tempo genero algum pelo seu meio alqueire, e, apesar d’isso, foi responder a uma audiencia. O Luneta, quando foi apprehendido, tinha já mandado encher seis ou sete sacos com o trigo medido pelo velho alqueirão. Não deverá com muita mais razão responder a audiencia? Luiza Maralhas podia allegar ignorancia sobre os quesitos da lei; o Luneta está collocado n’um dilemma fatal: para allegar ignorancia hade deixar de ser doutor; para continuar a ser doutor, hade confessar que calcou a lei a pés juntos. Entre Scylla e Carybdes não póde haver escolha. Daqui conclue-se que o Luneta ou é mau, ou doido, ou ignorante! Se é mau, cadeia; se é doido, Rilhafolles; se é ignorante, escola. Pobre Luneta! Lastimo-te deveras! Parece incrivel que tu, que outr’ora foste tão intrepido ao abrigo da lei, isto é, sophismando-a a teu bel-prazer, viesses cahir tão irrisoriamente do alto do teu orgulho! Porque não te juntaste com o teu amigo Bôa e como valentão que és não lançaste mão da espada ferrugenta para castigar o insolente que ousou fazer-te a apprehensão? Mas como hade ser, ser se todos vocês andam boiando no mar da asneira? De que te serve a luneta se não has-de ver por ella? Olha, um conselho d’amigo. Colloca a luneta na nuca, o chapeo nos pés e as botas na cabeça, e faze uma viagem aos antipodas, a digerir os remorsos, que te hão de dilacerar a alma. Creia, sr. redactor, na sinceridade com que me assigno, De v. etc. Francisco Maralhas.