Voltar ao arquivo
Artigo
Economia e comércioEstatísticasSociedade e vida quotidianaAgriculturaBeneficênciaIndústriaPecuária
Beja · Portugal Relatório

Relatorio acerca do estado da industria pecuaria no districto de Beja, apresentado á junta geral em 1879: (Continuado do n.º antecedente). E’ necessario portanto estudar e estudar muito bem o modo de alcançar alimentação barata para o gado, quando taes condições se manifestem. Pouco se pensa n’isto; pois fixe-se bem: é a base de toda a exploração pecuaria. Por incuria, ou não sei porque outro motivo de desleixo, se deixam morrer á fome centenares de rezes, principalmente ovinas, só porque se lhe não constroem abrigos, que podem ser feitos com a maior simplicidade e economia, onde em manjadouras apropriadas ao fim, ao lhe ministrassem algumas sobras de palha que não poucas vezes se inutilisa ou apenas se aproveita para estrume. Antes mesmo de se construirem taes abrigos, porque se não collocam nos redis em que os gados ameijoam, umas manjadouras baratas, portateis para ahi lhes ser fornecida a palha? Para que se despreza quasi toda a parra das vinhas? Porque a não arrecadam em tulhas, onde se conserva perfeitamente depois de salgada, para mais tarde (no inverno) a misturarem á palha que assim se torna mais appetecivel e mais alimentar? Façam o que aconselha o nosso primeiro zootechnico, o ex.mo conselheiro Silvestre Bernardo Lima. “Desperdiça-se muita parra e bagaço nos centros vinhateiros do paiz. Valia bem aproveital-os mais em favor da alimentação pecuaria, principalmente do gado caprino. Colhendo a parra fresca á desfolha da vinha e á vendima, e deitando-a em camadas bem calcadas dentro de tulhas, dórnas ou outros receptaculos analogos, espalhando sobre cada camada successiva de 0m,25 d’espessura, um centimetro de sal commum, cobrindo depois com taboas carregadas de pedras ou outros pezos, para ter sempre a massa bem comprimida; conserva-se assim a parra em todo o anno, quasi com a sua côr natural, macia, sapida e grata ao paladar dos animaes, mormente dos verminantes domesticos. Em valor altriz a parra é equivalente pelo azote por 121 kilogrammas d’ella a 100 kilogrammas de fêno. Se é exacta a avaliação do sr. Rebello da Silva, de 189:400 hectares de vinha em todo o paiz, calculando que cada hectare tem em media 8:000 pés de cêpa, e cada uma d’estas dá 140 grammas de parra, poder-se-hia colher por todas as vinhas do paiz 212.035:840 kilogrammas de parra, equivalentes a 176.002:680 kilogrammas de fêno; quantidade esta de forragem mais que sufficiente para sustentar durante um anno, á ração de producção (de 3 kilogrammas de fêno por 100 do peso vivo), um peso vivo de massa pecuaria de 16.004:698 kilogrammas ou 640:207 cabeças caprinas (computando-lhe o peso vivo medio de 25 kilogrammas). Não dando a parra para todo o anno, mas só nos quatro mezes de inverno, prestaria sustento para 1.820:621 cabeças, quasi o duplo da quantidade de gado caprino que o recenseamento accusa. E não entrando, como não deve entrar na totalidade da alimentação, mas sim por metade quando muito, poderia ajudar á sustentação durante os quatro mezes de inverno de 3.641:242 cabeças; isto é, não só todas as cabeças caprinas, senão juntamente todas as ovinas que o recenseamento apresenta, que tudo somma 3.643:646.” (Continua.)