Não se levantou a feira e mau foi que se não levantasse. O boato realisou-se. As cortes foram prorogadas até ao dia 2 de junho.
Nesta semana a machina trabalhou, noite e dia, a todo o vapor, na casa electiva, e deu o que se segue: Regeição das emendas, feitas pela camara dos pares, ao projecto que dá um posto de accesso ao sr. Serpa Pinto, e eleição de uma commisssão mixta para resolver este conflicto; construcção do porto de Leixões; abertura de um credito de 300:000$000 réis para as provincias ultramarinas, ampliando a auctorisação dada ao governo relativamente á via ferrea de Mormugão á fronteira do estado da India portugueza, construcção de dokas no porto de Lisboa, auctorisação para a construcção e costeamento de uma escola, em Povoa de Varzim, por conta do estado, auctorisando um emprestimo para a consolidação da divida fluctuante, reformando o collegio militar, auctorisando a reforma do exercito, auctorisando o governo a revêr o regulamento disciplinar do exercito, auctorisando o governo a reorganisar os serviços dependentes do ministério da guerra, abolindo o emolumento de 500 reis por cada carta de saude conferida aos navios de longo curso, auctorisando o prolongamento da linha ferrea do Douro, do Pinhão á Barca de Alva, annexando ao concelho de Castro Daire a freguezia de Almofalla, creando duas assembléas no circulo n.º 63 (Vouzella).
Em quanto a casa electiva aviou leis, com os antigos “Aviavam divindades,” a hereditaria foi pachorrentamente discutindo o orçamento geral do estado, e ao mesmo tempo torturando os ministros. Durante a semana esteve na berlinda o sr. Saraiva. Não invejamos a posição em que o nobre secretario de estado dos negocios das obras publicas ficou, depois dos discursos do nosso illustre sub-cheffe, e do sr. visconde de Chancelleiros. Soffreu uma verdadeira tosquia.
Actualmente discute
se o emprestimo de 400:000$000 rs. para obras publicas no ultramar. Sobre o assumpto usou da palavra o sr. Vaz Preto, que com uma vigorosa e logica argumentação e com alguns documentos allegados, torturou cruelmente o sr. ministro da marinha, pondo a descoberto a leviandade e incompetencia da sua gerencia, na verdade bem pouco feliz.
Pois para que pede o sr. ministro da marinha 400 contos? Porque julga necessarias aquellas obras no ultramar. Mas o sr. ministro mandou suspender essas obras, logo não as julga necessarias! E por esta forma, o digno par o sr. Vaz Preto mostrou a contradicção flagrante e evidente em que se achava o sr. marquez de Sabugosa, que ora julgava necessarias e urgentes umas obras, ora as mandava suspender como se ellas fossem inuteis! A discussão continua hoje.
O sr. ministro do reino apresentou uma proposta de lei applicando aos officiaes interiores das guardas municipaes de Lisboa e Porto as disposições da proposta de lei n.º 156. Tem graça, depois da camara dos pares ter cortado a melhoria de reforma aos musicos.
O projecto relativo aos caminhos de ferro do sul e sueste de que aqui démos noticia, foi apresentado na camara dos deputados não pelo governo, que o recebeu dos srs. Henrique Burnay & C.ª, mas pelos deputados do Algarve e Alemtejo os quaes pertencem a diversas parcialidades politicas. E’ caso novo.
Sendo
me urgente partir hoje d’esta cidade, por este meio tenho a honra de me despedir de todos os cavalheiros de minhas relações, pedindo-lhes mil desculpas de os não procurar pessoalmente, para lhes agradecer as suas delicadas finezas. Beja 25 de maio de 1880. Manuel de Paula da Rocha Vianna.
Tomou, quarta feira, assento em côrtes o nosso illustre correligionario o sr. Aguiar. Do modo como os deputados o receberam vae fallar uma folha insuspeita, o Diario popular. Diz o collega que o illustre academico foi recebido por toda a camara com as mais sympathicas demonstrações de estima e consideração pelos seus notaveis talentos e altissimo caracter. O sr. Aguiar hade honrar o parlamento com luzes do seu espirito, cujas variadas aptidões se tem provado em muitas commissões de difficil desempenho. Congratulamo-nos pelo acolhimento unanime de sympathia que a camara electiva lhe fez.
Quando no domingo passado, o nosso amigo Manuel Vianna vinha de Evora para esta cidade, ia soffrendo um grave desastre, ao partir o comboio da estação de Vianna do Alemtejo. Ainda chegou a estar em perigo de cahir sobre a via, suspenso instantes do postigo de uma carruagem sómente por uma das mãos. Ao ter sido sempre amador de exercicios physicos, e á sua presença de espirito, foi devido o escapar do perigo em que esteve.
Quinta feira fez a sua estreia a Philarmonica artistica bejense. A casa da sociedade estava bem decorada e ornada de emblemas e attributos musicos. Cercavam estes lindas coroas de louro, naturaes. Pelas 10 horas a direcção, acompanhada da banda marcial, foi offerecer um hymno ao digno representante d’este circulo o sr. Nobre de Carvalho, e pelas onze horas distribuiu um abundante bodo a setenta pobres, contribuindo com 20 esmolas o socio o sr. Nicolau da Conceição. A distribuição do bodo foi feita pelo sr. Nobre, pelos directores da philarmonica e outros socios. A banda tocou durante a distribuição. Parte da rua do Mestre Manoel e da Camá estava embandeirada, e á entrada da casa da sociedade erguia-se um elegante arco. Immenso concurso de povo assistio a esta festa de caridade e de culto á arte, da qual, faça-se justiça inteira, cabe o melhor quinhão de gloria ao distincto requinta do 17 de infanteria, o sr. Cançado. Em tres mezes ninguem póde fazer mais, não obstante alliar-se ao bom methodo do professor, a muita força de vontade dos alumnos. Á noite illuminou o edificio da sociedade a balões venesianos. Na janella do centro, em transparente, liam-se algumas quadras allusivas á festa. Na inauguração fallaram os nossos amigos Nobre de Carvalho e dr. Mendes Lima.
Porque será que prohibindo o codigo municipal, que se apascentem gados nos rocios, a policia não faz cumprir o disposto no codigo?
Prégam na festividade do S. S. Sacramento, os revds. Dâmaso Antunes, dr. Mendes Lima, e Bazilio.
Começaram hoje as festividades ao S. S. Sacramento. Hoje de manhã prégou o sr. dr. Mendes Lima, e de tarde o sr. padre Bazilio. Ao que se diz foram duas orações brilhantes.
Foi despachado alferes effectivo, e collocado em infanteria n.º 17, o sr. Ayres Guimarães Negrão.
O sr. Henrique Baptista de Andrade, tenente de infanteria 17, foi collocado em caçadores n.º 8.
A ceifeira mechanica, experimenta
se este anno unicamente nos concelhos de Beja e Serpa.
Corre que pedio a demissão o administrador do concelho de Vidigueira, o sr. Manoel Ignacio do Mello Garrido.
Foram concedidas as honras de proto notario, ao revd.º Antonio Camacho de Brito. Os nossos parabens.
Hontem sahio a procissão de Corpus Christi. Ia coisa mui luzida... nas patas dos cavallos. Prohibido em Lisboa o bando dos toiros, em Beja não se devia permittir que a procissão percorresse a cidade. Bastava fazel-a em volta do largo do Salvador. Era menor o incommodo para os srs. padres, para a sr.ª tropa, e para... os srs. cavallos. Então não era?
Sr. redactor
Um acto brutal praticado pelo parocho d’esta freguezia, dentro da sachristia da egreja, deu muito que fallar: estava o parocho já paramentado para dizer missa aos fieis na egreja, e insulta o sachristão, diz toda a casta de obscenidade que lhe occorre, e acaba por apertar as guelas ao sachristão, que é o sr. Joaquim Romão de Mattos, homem serio, velho e na actualidade doente. E’ geral a indignação. A auctoridade deu parte.
Sabado, á noite, ha fogo de vistas no largo de Santa Maria.
Sabado ha reunião de familias na Sociedade philarmonica.
O contingente da contribuição predial, que toca a este districto, é de 105:060$000 rs.
Foi transferido para o forte da Graça, o sr. Faria, cirurgião mór de infanteria n.º 17.
O sr. Julio Cesar Leão Cabreira, foi transferido para infanteria n.º 6.
Hontem houve reunião de familias na Sociedade bejense. Ha muito tempo que n’aquella casa se não dá uma festa tão completa. Mui concorrida, serviço profuso, decoração do edificio primorosa e grande animação. Esteve esplendido o baile.
Publicaram
se os fasciculos 101 e 102 do Diccionario de geographia.
Foram collocados em infanteria 17, o alferes Sande Menezes, o cirurgião mór Cunha Belem, e o tenente Damasceno.
Recolheram todos os destacamentos do corpo de policia civil.
Foram adjudicadas as ferragens para os paços do concelho ao sr. Pereira, de Lisboa; as grades das janellas ao sr. Antonio Manoel Domingues, d’esta cidade, e a demolição e reconstrucção da antiga pescadaria, ao sr. Thomaz Navalhas.
Quarta feira teve revista de grande uniforme o 17 de infanteria.
Os pastos dos ferragiaes vendidos com applicação para o novo theatro, renderam 443$000 réis.
Parte official
Carta de lei auctorisando o governo a transferir de uns capitulos para outros, as sobras de differentes verbas do orçamento; ditto auctorisando a casa real a contrahir um emprestimo de 80:000$000 rs.; ditto auctorisando a cunhagem de 2:000$000 rs. em moedas de 5 rs.; ditto auctorisando uma nova tabella de quotas de cobrança dos recebedores; ditto declarando livre de direitos de nacionalização os barcos movidos a vapor, cuja propriedade pertence a portuguezes; ditto fixando o quadro de saude na Guiné; ditto marcando a congrua do arcebispo coadjuctor do Oriente; ditto mandando abrir um credito de 40:000$000 rs. para as despezas de installação na Guiné; ditto concedendo a graduação de capitão ao commissario de mostras do regimento do ultramar; ditto que acaba com a contribuição predial extraordinaria, a parte do imposto de viação addiccional á contribuição predial e o imposto de dois por cento para falhas e annullações e revoga a legislação que addicionou aos contingentes da contribuição predial os ordenados dos escripturarios; ditto modificando a contribuição de registo e sujeitando a este imposto diversos actos que delle eram isemptos.
Relatorio acerca do estado da industria pecuaria no districto de Beja, apresentado á junta geral em 1879: (Continuado do n.º antecedente). E’ necessario portanto estudar e estudar muito bem o modo de alcançar alimentação barata para o gado, quando taes condições se manifestem. Pouco se pensa n’isto; pois fixe-se bem: é a base de toda a exploração pecuaria. Por incuria, ou não sei porque outro motivo de desleixo, se deixam morrer á fome centenares de rezes, principalmente ovinas, só porque se lhe não constroem abrigos, que podem ser feitos com a maior simplicidade e economia, onde em manjadouras apropriadas ao fim, ao lhe ministrassem algumas sobras de palha que não poucas vezes se inutilisa ou apenas se aproveita para estrume. Antes mesmo de se construirem taes abrigos, porque se não collocam nos redis em que os gados ameijoam, umas manjadouras baratas, portateis para ahi lhes ser fornecida a palha? Para que se despreza quasi toda a parra das vinhas? Porque a não arrecadam em tulhas, onde se conserva perfeitamente depois de salgada, para mais tarde (no inverno) a misturarem á palha que assim se torna mais appetecivel e mais alimentar? Façam o que aconselha o nosso primeiro zootechnico, o ex.mo conselheiro Silvestre Bernardo Lima. “Desperdiça-se muita parra e bagaço nos centros vinhateiros do paiz. Valia bem aproveital-os mais em favor da alimentação pecuaria, principalmente do gado caprino. Colhendo a parra fresca á desfolha da vinha e á vendima, e deitando-a em camadas bem calcadas dentro de tulhas, dórnas ou outros receptaculos analogos, espalhando sobre cada camada successiva de 0m,25 d’espessura, um centimetro de sal commum, cobrindo depois com taboas carregadas de pedras ou outros pezos, para ter sempre a massa bem comprimida; conserva-se assim a parra em todo o anno, quasi com a sua côr natural, macia, sapida e grata ao paladar dos animaes, mormente dos verminantes domesticos. Em valor altriz a parra é equivalente pelo azote por 121 kilogrammas d’ella a 100 kilogrammas de fêno. Se é exacta a avaliação do sr. Rebello da Silva, de 189:400 hectares de vinha em todo o paiz, calculando que cada hectare tem em media 8:000 pés de cêpa, e cada uma d’estas dá 140 grammas de parra, poder-se-hia colher por todas as vinhas do paiz 212.035:840 kilogrammas de parra, equivalentes a 176.002:680 kilogrammas de fêno; quantidade esta de forragem mais que sufficiente para sustentar durante um anno, á ração de producção (de 3 kilogrammas de fêno por 100 do peso vivo), um peso vivo de massa pecuaria de 16.004:698 kilogrammas ou 640:207 cabeças caprinas (computando-lhe o peso vivo medio de 25 kilogrammas). Não dando a parra para todo o anno, mas só nos quatro mezes de inverno, prestaria sustento para 1.820:621 cabeças, quasi o duplo da quantidade de gado caprino que o recenseamento accusa. E não entrando, como não deve entrar na totalidade da alimentação, mas sim por metade quando muito, poderia ajudar á sustentação durante os quatro mezes de inverno de 3.641:242 cabeças; isto é, não só todas as cabeças caprinas, senão juntamente todas as ovinas que o recenseamento apresenta, que tudo somma 3.643:646.” (Continua.)
Acontecimentos na Europa
São extremamente curiosas as phases por que está passando a politica burgueza; como é natural a imprensa socialista busca tirar partido da discordia que lavra no campo burguez, e, comquanto os boatos espalhados devam ser tomados debaixo de toda a reserva, não podemos comtudo deixar de dizer que as fileiras do quarto estado social vão augmentando de numero, e pela força e altivez que apresentam obrigam os governos ainda mesmo os que ha pouco se mostravam irreconciliaveis. Sejamos francos, embora os que menos cuidam dos variantes na politica europeia, nos apodem de demagogos e de revolucionarios. Não ha muito tempo, por exemplo, chamava todas as attenções o dualismo de Bismarck para com a Russia, que arrastara a Allemanha a unir-se á Austria, dando logar a accesa polemica na imprensa, sendo o imperio do czar atacado com bastante azedume pela Gazeta da Allemanha do Norte, e outros jornaes allemães. Agora, já vemos como a reatacção das relações entre a Russia e o imperio allemão, sendo para esperar novamente uma proxima alliança dos tres imperadores! As causas d’esta transformação, idéas predominantes em Berlim, explicam-se pelo resultado das eleições em Inglaterra, resultado que teve o privilegio de quasi desconcertar os planos politicos do chanceller, ora em completo ocaso da sua boa estrella. Mas a questão vae mais longe. A confusão resultante da mudança politica na Inglaterra é em extremo grave em S. Petersburgo; o czar parece ter entrado no trilho das concessões, unico meio de retardar os effeitos, embora inevitaveis da revolução. Segundo as recentes noticias o governo moscovita vae pôr em liberdade 200 prisioneiros politicos em S. Petersburgo, e 4:000 nas provincias do imperio, e bem assim tornar menos frequentes as visitas domiciliarias da policia. O partido revolucionario mostra-se mais recolhido e mais tranquillo. São menos os seus manejos, e nos ultimos tempos diminuiu notavelmente a corrente das publicações clandestinas; o silencio da imprensa authorisada assim o faz suppor. A vigilancia da policia, que apprehendeu muitos presos deve necessariamente influir no facto. E’ do exterior que as proclamações são remettidas para a Russia; algumas embaixadas tem recebido pelo correio de Genebra documentos ameaçadores. Não só confirmam as noticias que circulam com respeito ás instancias de Melikoff junto do imperador para que o conde Tolstoi fosse exonerado. Semelhante procedimento seria, além de contrario ás tradições da politica moscovita, imprudente n’este momento. Assegura-se de boa origem que o presidente da commissão suprema, que no seu fôro intimo póde ser um adversario determinado do actual regimen da instrucção publica, se recusa porém a tocar na perigosa e ardente questão d’uma exoneração de ministro. Uma innovação importante foi igualmente adoptada no serviço publico. Até o presente o conselho de ministros deliberava no mais absoluto segredo e ignoravam-se as resoluções tomadas até que fossem formuladas em actos officiaes. O jornal Bareg, publicará d’ora em diante as necessarias informações sobre as sessões do conselho de ministros. Estes factos conforme se vê são muito importantes pelo que diz respeito á politica interior do imperio; agora fallemos ácerca da politica exterior. O periodo da lucta eleitoral entre liberaes e conservadores inglezes foi acompanhado na Russia com o mais profundo interesse, e ainda hoje é com o mais alto interesse que o Golos e outras folhas de não menor consideração se occupam de tal assumpto o qual para os moscowitas está por assim dizer ainda no periodo das primeiras impressões. A Europa caminha para a completa transformação politica e este facto, está confirmado pela mudança por assim dizer rapida na politica moscowita, e bem assim na que o principe de Bismark julgou poder inaugurar de accordo com o partido ultramontano allemão e austriaco contra os principios dimanados da escola democratica.—E’ porque na despostas tem de obedecer a uma força superior ao seu poder e essa força que reside na soberania do povo impõe-se hoje, felizmente aos thronos, ás leis e aos altares, e dos escombros do mundo velho faz resurgir o novo mundo. O facto que se deu na Italia—isto é, o resultado da lucta eleitoral favoravel ao governo—veio confirmar as nossas suspeitas expendidas por vozes n’este tão importante assumpto. O ultramontanismo cerrou as suas fileiras é facto, mas não menos facto é que soffreu a mais completa e vergonhosa derrota nos differentes circulos onde se manifestou na lucta; os ultramontanos com o fim de obterem alguns logares no parlamento não tiveram pejo em só apresentarem n’uns circulos defendendo os principios da escola liberal avançada e n’outros os da escola conservadora—a trica foi descoberta a tempo e os candidatos favorecidos pelo Vaticano tiveram de bater em retirada dando assim victoria esplendida ao partido liberal. O resultado da lucta eleitoral na Italia produziu sensação nos centros ultra conservadores e reaccionarios na Austria e na Allemanha. Assim era de esperar. Os acontecimentos precipitam-se uns após outros—seguil-os-hemos com a maxima imparcialidade.
LISBOA 11-5-80
Cidadão redactor—As ultimas noticias chegadas de Angola teem consternado e indignado todos os que d’ellas teem tido conhecimento. Temos perdido uma grande parte das nossas possessões ultramarinas, perda que os nossos patrioteiros attribuem á ambição britannica, não pretendemos negar desejos que ha largos annos assaltam a nossa fiel alliada e até mesmo temos a certeza que, se os nossos governos continuarem pela senda que teem seguido ha cincoenta annos a esta parte, dentro em pouco, Portugal deixará de possuir o pouco que lhe resta das suas colonias. O facto das colonias acceitarem de bom agrado a tutela d’outro paiz, não é não só pelas vantagens que lhes podem advir, mas porque estão cançadas da constante tyrannia que as opprime, e almejam por sacudir o jugo despótico dos militares governadores que os nossos governos para alli teem enviado, que, alem de usufruirem a melhor parte do producto do trabalho dos desgraçados, ainda em cima os escarnecem e torturam. Senão vejamos a seguinte noticia: “Francisco Ramos, de 28 annos de edade, homem robusto, de forças herculeas, de estatura regular, natural de Monte-mór o Velho, chegara a Loanda no vapor Buenguella, no dia 2 de fevereiro de 1872 condemnado a 4 annos de degredo etc. ‘Fui feito soldado da bateria de artilheria, e servira como creado do presidente da camara municipal de Loanda. Na noite de 3 de março fui bater á porta do quintal do cirurgião mór, José Baptista de Oliveira, dizendo que levava uma carta ao secretario geral. Depois Ramos escondera-se no quintal para aggredir a Rezende, presidente da camara, e o cirurgião Oliveira tentou tres vezes desfechar um revolver sobre o soldado, que lhe atirou com uma pedra ao braço em que segurava o revolver partindo lh’o; o cirurgião mór descarregou uma pancada com um cacête na cabeça de Ramos, que este cahio por terra, sendo em seguida espancado e preso, ficando incommunicavel. O que levou o Ramos a praticar semelhante represalia, foi o sr. Rezende não quer pagar-lhe as soldadas que lhe devia (10 mezes a 20 mil réis) e fazel-o prender por as haver pedido. No dia 6 sahio Ramos, entre uma escolta, d’um calabouço aonde estivera sem comer nem beber durante dois dias, e foi para a fortaleza de S. Miguel. Alli respondeu a conselho de disciplina e foi condemnado a levar tantas varadas quantas pudesse soffrer sem risco immediatamente de vida. (O sublinhado é nosso). O commandante da bateria havia já requisitado um facultativo ao chefe de serviço de saude. A sentença foi immediatamente executada, começando ás 4 horas da tarde e cessando ás 6 e um quarto, porque os cornetas cançaram de tocar! Os soldados que seguravam a arma aonde estava preso o chibatado, foram revesados quatro vezes. Eram quatro cabos e quatro soldados que por seu turno iam batendo 25 varadas applicadas indistinctamente nas costas, nos rins e até no ventre!!! Quando os soldados e cabos não poderam mais bater, cada soldado da forma deu 80 varadas! Contaram até 10:017 varadas. O castigo cessou por ordem do commandante, porque o humanitario facultativo ainda achava pouco!! Alguns soldados cairam no chão commovidos por tal barbaridade! O chibatado foi mettido n’uma maca e levado para o calabouço da policia, aonde permaneceu sem tratamento até ao dia 8 que foi removido para o hospital, aonde falleceu ás 11 horas da noite.” Este horroroso assassinato foi mandado executar pelo governador d’aquella provincia que é o sr. Vasco Guedes de Menezes, sobrinho, segundo nos consta, do sr. marquez de Sabugosa, actual ministro da marinha! Mas não param aqui as barbaridades praticadas por este humanitario governador; segundo conta o nosso collega do Jornal de Loanda, ha poucos dias que um agente de policia torturou a palmatoadas uma infeliz mulher que era mãe de filhos e andava gravida e tudo para a obrigar a confessar um crime de que ella não era culpada! O castigo de 1:500 varadas, é mandado applicar pelo sr. Vasco Guedes, até mesmo em homens livres, e considera elle este barbaro castigo, como uma generosidade!.. Ora em vista d’isto o que temos nós a esperar d’aquelles povos? O mesmo que a Hespanha está prestes a receber dos povos cubanos. Continuam em grande actividade os preparativos para a celebração dos festejos em commemoração do tricentenario do grande epico Luiz de Camões. Realisou-se a primeira conferencia, e por consequinte o primeiro artigo da primeira parte do programma. Foi conferente o sr. Theophilo Braga. Representei a redacção do Bejense. M. Bruno.
Bibliographia
A Moda illustrada.—Distribuiu-se o numero 34 d’este excellente periodico de familias, o primeiro que no seu genero se publica no nosso paiz.
Bibliographia
Mulheres e creanças.—(Notas sobre educação)—por D. Maria Amalia Vaz de Carvalho.—Bibliotheca do Cura de Aldeia, Porto. Temos sobre a banca de trabalho este novo livro, fructo do comprovado talento da eximia auctora dos Arabescos, e doutras não menos esplendidas producções que lhe tem grangeado logar distincto na republica das letras. Seria por certo uma offensa á modestia da laureada cultora das letras patrias se tentassem os mesmos ao de leve que fosse, dispensar quaesquer encomios á nova producção; a sua importancia litteraria e moral, bem assim o nome da auctora, está, devemos assim dizer, muito acima de todo o elogio que possa dispensar-se a tão util quanto necessaria obra. Mulheres e creanças, é um livro que deve ser lido por todas as pessoas que estimam como nós estimamos os bons trabalhos litterarios. Acha-se á venda no escriptorio da empreza, e custa brochado 600 réis. A mesma empreza tem no prelo as seguintes obras: O Cura de Aldeia, 2.ª edição, 3.º vol.; O Inferno dos ciumes, 2.ª edição; Os Martyres do christianismo, 2 volumes ornados de bellissimas gravuras, e Contos e Phantasias, 1 vol. por D. Maria Amalia Vaz de Carvalho.
Bibliographia
Camões e os Lusíadas, ensaio historico-critico litterario. Este livro, um dos melhores que se tem escripto a respeito de Camões, e que ha annos foi publicado pelo sr. F. E. Leoni, socio effectivo da academia das sciencias, foi novamente editado pelo livreiro da rua Augusta, o sr. Antonio Maria Pereira.
Bibliographia
Diccionario de geographia Universal.—Empreza Horas romanticas.—Distribuiu-se o fasciculo 102 d’esta obra. Vae na lettra H A S. Cada fasciculo 100 réis.
Beringel
O parocho d’esta freguezia, Beringel, attesta sempre d’um modo incrivel! Devia causar reparo a contradicção dos attestados do parocho com os attestados do regedor, e da junta de parochia quando tratam do mesmo assumpto! Parece se devia conhecer de que lado está a verdade! Lembramos ao revd.º parocho que embora receba 240 reis quando attesta a pobreza dos que reclamam a isempção do serviço militar, não obrigue os desgraçados a comprar papel sellado para os attestados quando a lei os isempta desta despeza como sua reverendissima muito bem sabe.
Aljustrel 27 de maio
A semana passada vieram a esta villa, um empregado de Rilhafoles e um policia de Lisboa, para fazerem conduzir áquelle estabelecimento o maluquinho das paludosas que d’ali desapparecera no mesmo dia em que a mãe o deu á luz. Á vista prespicaz dos dois empregados, não poude o maluquinho esconder-se e por isso facil lhes foi deitarem-lhe a mão; mas ao desdobrar o collete do torças, elle dá um salto e vae encobrir-se com o Boia que muito proximo flucttuava no mar da ignorancia. Os pobres empregados não recuaram, seguiram o desgraçado, e ao deitarem-lhe o laço, ouvem dizer, Ah! righi! Voltam-se e veem dois policimens e um dos mais zoologos que dirige o museu zoologico de Londres, que reclamava a presa, não como maluquinho, como em Lisboa e aqui diziam, mas como um formoso gorilha que os professores Darwin e Tyndall tinham descoberto na provincia da Beira Alta quando visitaram este paiz. Aos gritos e saltos do desgraçado, acudio o espada ferrugenta. Como pessoa muito instruída e muito sympathica n’este concelho e fóra d’elle para o José de Vilhena de Alvalade, por causa do dinheiro dos orphãos e falla assim:—Meus senhores! os senhores estão enganados com este nome, e este homem nem é o maluquinho das paludosas, nem é o gorilha descoberto pelos sabios. Este homem é o mais nobre quadrupe que tem pisado Aljustrel; e por isso imponho a minha auctoridade para que o deixem em paz e socegados. Em vista d’isto todos se retiraram e o Boia dizia ao seu protegido, “deixa lá, o espada ferrugenta tem razão no que diz, e tu ainda que mintas toda a tua vida para o elevar, não fazes mais que o teu dever. O povo não chora por elle, nem nunca chorou, porque o povo odeia-o a elle, á tia sua, ao Canastro e a toda essa sucia, mas tu vae dizendo, porque elle tem razão no que diz a teu respeito.” As febres parece que vão dando já os seus resultados e por isso muito bom seria que o sr. delegado desse andamento ao processo do sr. Figueiredo por causa do alqueirão, porque este sr. não é mais que Luiza Muralhas e outros, contra quem s. ex.ª procedeu por delicto igual. Justiça a todos é que nós desejamos. Parece que o sr. Metello vae abrir um posto medico n’esta villa para a estação das febres, empregando todo o seu talento e saber como o tem empregado sempre, não tratando do linguem e recebendo o ordenado. Au revoir. Chicote dos paludosos.
Aljustrel 18 de maio de 1880
Sr. redactor.—Quinze interminaveis dias, sem que o animalsinho ladre, nem ao menos rosne!!! E’ caso. Chegámos a prantear um novo desaparecimento do animalsinho. Julgando-o perdido, lembrou-nos publicar annuncios offerecendo alviçaras—oppunha-se-nos porem uma grave difficuldade—não sabermos porque nome dá o animalsinho. No auge da nossa afflicção, quando mil alvitres eram tão depressa propostos como logo regeitados por inexequiveis, esgotadas todas as idéas, exhauridos todos os recursos, e quando menos o esperavamos, surge em nosso auxilio, um amigo dedicado, um salvador, que com uma só palavra nos dá um alegrão. Que lamentações são essas? O brutinho, nem morreu, nem está doente nem frêgio, se não tem ladrado, é por certos motivos... disse o nosso amigo piscando o olho direito, afagando o bigode com a mão esquerda, ao mesmo tempo que com a direita inclinava o chapéu para traz, guardando uns d’aquelles silencios eloquentes e rodando os ares victoriosos do quem está senhor d’um segredo importante, e que d’antemão goza do espanto, da curiosidade, d’aquelles que, impacientes ou receiosos, esperam, imploram, ou tentam adivinhar o segredo. O auditorio, ao principio surprehendido, prorompeu em conjecturas: Está com grossa! dizem uns.—Não, retorquia outro—foi atacado das paludosas... nada, nada, gritam muitos, se o animalsinho não está doente e não ladra é porque o açoutaram!!! Nos labios do nosso amigo, desabrochou-se um sorriso complacente e encarando o auditorio disse: Nada d’isso, ó desvanecem. O brutinho, aquelle que nós todos julgavamos chamar-se TóW, mas que se chama Figueiró, repito-lhes, não foi victima de fatalidade alguma; se não ladra, é porque o seu tempo tem ultimamente sido empregado em certas coisas. Eu lhes digo... primeiro o pobre brutinho tem andado tratando de pôr as costas a seguro, não só por causa d’umas certas contas que para si ladram, mas tambem por causa d’umas estropelias que fez ha tempos no celeiro do pai da dona; ao mesmo tempo, e para conquistar as boas graças dos da casa, emprega todas as manhas para apanhar a melhor posta do bezerro que está para ser dividido entre a sua dona e mais parentes—além d’isso nas horas vagas tem andado a aprender habilidades... é vel-o aos domingos depois da missa, como acompanha as manas da dona quando alguma d’ellas vae tocar como madrinha a algum baptisado. Tem tanta graça o malfarrico quando vae por essas ruas, ao lado das patrôas, a andar nas patinhas traseiras e o rabinho a dar a dar... e as olhadelas que o maldito deita aos que passam, é de se morrer de riso. Nosso Senhor me perdôe—mas tem mesmo ares de gente christã. Tambem de todos os trabalhos é d’este que recebe paga mais prompta. Quando o baptisado recolhe a casa, é ver como elle se atira aos bolos—então é que é vel o fazer palhaçadas... ora aqui está qual é a sorte do animalsinho. Vocês a suporem toda a casta de fatalidade—pois para outra vez sejam mais prespicazes—e adeus. Com isto retirou-se o nosso amigo, esquivando-se aos nossos calorosos agradecimentos: o mesmo faço eu por hoje e escuso dizer-lhes. Continuar-se-ha. Arque.