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Artigo

LISBOA 11-5-80

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Cidadão redactor—As ultimas noticias chegadas de Angola teem consternado e indignado todos os que d’ellas teem tido conhecimento. Temos perdido uma grande parte das nossas possessões ultramarinas, perda que os nossos patrioteiros attribuem á ambição britannica, não pretendemos negar desejos que ha largos annos assaltam a nossa fiel alliada e até mesmo temos a certeza que, se os nossos governos continuarem pela senda que teem seguido ha cincoenta annos a esta parte, dentro em pouco, Portugal deixará de possuir o pouco que lhe resta das suas colonias. O facto das colonias acceitarem de bom agrado a tutela d’outro paiz, não é não só pelas vantagens que lhes podem advir, mas porque estão cançadas da constante tyrannia que as opprime, e almejam por sacudir o jugo despótico dos militares governadores que os nossos governos para alli teem enviado, que, alem de usufruirem a melhor parte do producto do trabalho dos desgraçados, ainda em cima os escarnecem e torturam. Senão vejamos a seguinte noticia: “Francisco Ramos, de 28 annos de edade, homem robusto, de forças herculeas, de estatura regular, natural de Monte-mór o Velho, chegara a Loanda no vapor Buenguella, no dia 2 de fevereiro de 1872 condemnado a 4 annos de degredo etc. ‘Fui feito soldado da bateria de artilheria, e servira como creado do presidente da camara municipal de Loanda. Na noite de 3 de março fui bater á porta do quintal do cirurgião mór, José Baptista de Oliveira, dizendo que levava uma carta ao secretario geral. Depois Ramos escondera-se no quintal para aggredir a Rezende, presidente da camara, e o cirurgião Oliveira tentou tres vezes desfechar um revolver sobre o soldado, que lhe atirou com uma pedra ao braço em que segurava o revolver partindo lh’o; o cirurgião mór descarregou uma pancada com um cacête na cabeça de Ramos, que este cahio por terra, sendo em seguida espancado e preso, ficando incommunicavel. O que levou o Ramos a praticar semelhante represalia, foi o sr. Rezende não quer pagar-lhe as soldadas que lhe devia (10 mezes a 20 mil réis) e fazel-o prender por as haver pedido. No dia 6 sahio Ramos, entre uma escolta, d’um calabouço aonde estivera sem comer nem beber durante dois dias, e foi para a fortaleza de S. Miguel. Alli respondeu a conselho de disciplina e foi condemnado a levar tantas varadas quantas pudesse soffrer sem risco immediatamente de vida. (O sublinhado é nosso). O commandante da bateria havia já requisitado um facultativo ao chefe de serviço de saude. A sentença foi immediatamente executada, começando ás 4 horas da tarde e cessando ás 6 e um quarto, porque os cornetas cançaram de tocar! Os soldados que seguravam a arma aonde estava preso o chibatado, foram revesados quatro vezes. Eram quatro cabos e quatro soldados que por seu turno iam batendo 25 varadas applicadas indistinctamente nas costas, nos rins e até no ventre!!! Quando os soldados e cabos não poderam mais bater, cada soldado da forma deu 80 varadas! Contaram até 10:017 varadas. O castigo cessou por ordem do commandante, porque o humanitario facultativo ainda achava pouco!! Alguns soldados cairam no chão commovidos por tal barbaridade! O chibatado foi mettido n’uma maca e levado para o calabouço da policia, aonde permaneceu sem tratamento até ao dia 8 que foi removido para o hospital, aonde falleceu ás 11 horas da noite.” Este horroroso assassinato foi mandado executar pelo governador d’aquella provincia que é o sr. Vasco Guedes de Menezes, sobrinho, segundo nos consta, do sr. marquez de Sabugosa, actual ministro da marinha! Mas não param aqui as barbaridades praticadas por este humanitario governador; segundo conta o nosso collega do Jornal de Loanda, ha poucos dias que um agente de policia torturou a palmatoadas uma infeliz mulher que era mãe de filhos e andava gravida e tudo para a obrigar a confessar um crime de que ella não era culpada! O castigo de 1:500 varadas, é mandado applicar pelo sr. Vasco Guedes, até mesmo em homens livres, e considera elle este barbaro castigo, como uma generosidade!.. Ora em vista d’isto o que temos nós a esperar d’aquelles povos? O mesmo que a Hespanha está prestes a receber dos povos cubanos. Continuam em grande actividade os preparativos para a celebração dos festejos em commemoração do tricentenario do grande epico Luiz de Camões. Realisou-se a primeira conferencia, e por consequinte o primeiro artigo da primeira parte do programma. Foi conferente o sr. Theophilo Braga. Representei a redacção do Bejense. M. Bruno.